Ela despertou no dia seguinte sem ressaca, o corpo já estava bem acostumado com a overdose alcoólica que virava rotina…

Seu primeiro instinto foi buscar o celular e haviam três mensagens do André…

“Uau lindinha. Que coragem! Vou começar a te dar mais vinho hein? Olha, tudo bem para empurrar para 5, mas vamos com calma porque não quero nenhum desespero aí, ok? Acorde melhor e falamos com calma…”

“Ah! Minha apresentação é terça-feira. Nem tem muito stress não, é só mostrar os resultados e eles foram bons. Então comemoraremos, com certeza. Pode ser na quarta?”

“E viu… Adorei o beijo gostoso, pelo que me lembre esse era uma das nossas grandes características. Beijo em vc!”

Ela sorriu por ele pensar que apenas uma garrafa a faria mandar a mensagem atualmente. Talvez ela estivesse mais mudada que ele pensava – ou ele também estivesse diferente. Riu da inocência, mas sentiu um pouco de culpa pelo resto. Resolveu seguir a sua manhã deprê e foi na sua rotina pós overdose alcoólica. O estômago sempre reclamava, a barriga começava a pesar mais do que o normal e então ela demorou quase 40 minutos no banheiro. Saiu de banho lavado e alma leve. Sorriu para as garrafas vazias e limpou um pouco a casa. Eram quase 11h da manhã quando lembrou que o André provavelmente já tinha verificado o celular e visto que ela visualizou as mensagens e não respondeu.

“Oie! Nem pense em me dar mais vinho. Sou muito perigosa com ele e depois não respondo pelos meus atos. Perfeito sobre quarta-feira. Eu posso me programar sim e nos vemos. Estou totalmente por fora de onde ir, então essa é sua tarefa. Apenas me confirme e estarei lá. Beijo”

Depois de alguns segundos, quis apimentar um pouco a mensagem…

“Eu lembro muito bem de como era o teu beijo. Será que eu ainda sei beijar para igualar?”

Ela se sentiu um pouco estranha com a mensagem “safada”, mas logo relevou porque sabia que ele relevaria qualquer teor desnecessário da conversa e saberia que ela estava se “readaptando” ao mundo real.

O final de semana seguiu normal. Tiveram algumas trocas de mensagens com André no decorrer do sábado, mas como ele estava no aniversário de Renato – que era um dos melhores amigos dele – pouco teve tempo de olhar mensagens ou conversar mais profundamente. No domingo ele estava com a apresentação e ela se auto orgulhava por ter bebido apenas duas garrafas de vinho nos dois últimos dias – visto que ela havia comprado 6 garrafas para o final de semana (2 por dia, na conta inicial) e ficou pensando se seria uma boa ter garrafas de vinho em casa durante a semana – coisa rara nesses últimos meses que ela se controlava para beber apenas de sexta até domingo.

Por incrível que pareça os dois dias antes do “primeiro reencontro”, passaram normais. O trabalho a mantinha ocupada muito nos últimos tempos e a rotina de reuniões e relatórios facilitava a “impressão” que as horas voavam e ocupavam sua cabeça. Quando chegou em casa na terça-feira, havia duas mensagens de André sem resposta que ela precisava dar continuidade.

“E ae lindinha? Tudo certo para amanhã? Acho que já tenho um bar bem sussa para alegrar a vida. Me avisa e combinamos. Beijos gostosos”

“Ixi… Será que a lindinha se arrependeu dos papos?” – era a segunda mensagem que ele tinha enviado.

“Oie! Desculpa. Vida louca e corrida por aqui. Não me arrependi de nada. Estou como uma louca para ajeitar tudo e deixar a quarta-feira tranquila para não atrasar nem um minuto. Pode ficar tranquilo. Me conte onde vamos. Tô curiosa”

“Olá… Imaginei! Mas que bom que está tudo certo. O bar é surpresa… Mas fica tranquila que não precisa se arrumar, fazer escova e colocar vestido de casamento não. É bar/boteco como nos velhos tempos.”

“KKKKK Isso eu já sabia. Se fosse precisar tudo isso, teria que desmarcar porque não teria tempo de verdade. Mas como vou saber chegar no bar, se não sei onde ir?”

Ela ficou surpresa com o rumo, mas sabia que ele a ofereceria carona. Só não imaginava isso logo no “primeiro encontro” entre os dois, depois de todos esses anos.

“Ueh… Não vamos juntos? Vai ser tipo encontro Tinder? Cada um em seu carro e tudo mais?”

“KKKK tonto… Eu aceito a carona, mas só para não te fazer sair muito do caminho…”

“Não é problema algum po. Será um prazer te dar carona e é muito mais simples. Assim ninguém fica sozinho esperando um ou outro no bar né?”

“KKKKK Verdade. Seria um pouco triste. Mas você sabe que sou pontual, então isso você pode ficar tranquilo.”

“Eu lembro bem, mas ainda ofereço carona, com todo prazer de verdade.”

“Aceito então!”

Eles continuaram conversando futilidades e ela passou o endereço porque com o André não conhecia o apartamento novo dela. Marcaram para as 19h30 e ela achou ótimo porque estava planejando sua última reunião para às 16h30 e com certeza antes das 18h estaria em casa. Tempo de sobra para se arrumar.

Ela sabia que não tinha que colocar nenhuma ansiedade no encontro, mas sabia que, se tudo corresse de maneira normal, o André seria o primeiro cara que ela beijaria depois do seu “ex-noivo” – não foi oficial, mas era como se tivesse sido. Isso a deixava um pouco nervosa, mas resolveu relaxar e abriu uma das garrafas de vinho para tentar amenizar os pensamentos. Enquanto jantava uma salada com frango, porque ela havia começado uma dieta já no domingo e tentava perder três quilos impossíveis até o dia seguinte, ela se controlava com apenas uma taça normal para amenizar os pensamentos e conseguir dormir sem acelerar ou queimar nenhuma das etapas que estava construindo até então.

O dia seguiu em seu ritmo normal e todo o planejamento se cumpriu normalmente. Conseguiu sair às 17h15 do escritório o que fez com que chegasse 17h45 em sua casa. Sem pressa tomou seu banho e estava se arrumando quando recebeu uma mensagem no celular. Era André.

“Eu já estou pronto. Só avisar. Daqui até aí tem 20 minutos, então me avisa que eu saio…”

“Oie! Olha que gostoso, eu estou quase pronta. Preciso de 15 minutos. Então se quiser já vir vindo, perfeito. Eu estarei 100% quando você chegar.”

“Opa! Perfeito… Podemos adicionar 2 cervejas mais nessa meia hora de presente hein?”

“Vamos com calma que amanhã é quinta.”

“Não é para comemorar?”

“Sim, mas com moderação. Eu acho que estou destreinada. Tem que ir com calma.”

“Você pega o ritmo rápido das coisas… Certeza”

“Coisas? Que plural é esse?”

“Ops… Saiu sem querer. Já vou saindo… Até daqui a pouco”

Ela terminou de se arrumar e em menos de quinze minutos estava esperando o André na porta do seu prédio, enquanto conversava com Zé – seu porteiro que era uma das pessoas mais sensacionais que ela havia conhecido nos últimos anos. Zé foi um dos primeiros a saber de toda a crise da sua vida e ficou realmente preocupado com ela durante os últimos meses – ainda mais quando via as garrafas vazias de bebidas na segunda-feira. Ela criou algumas rotinas diferentes para evitar que ele a visse entrando com as garrafas na sexta-feira, quando ela começou a sair mais cedo do trabalho para evitar chegar depois do seu turno, e jogava o lixo fora no domingo à noite, quando era um porteiro “folguista” e não os habituais.

“Dona Mari. Que gostoso. A vejo muito bonita e alegre. Espero que seja o reinício da alegria em seu coração. Que Jesus te ilumine muito.”

“Podemos deixar Jesus fora um pouco, porque talvez role algum pecado hoje.”

“HAHAHAHAHA Dona Mari… Só a senhora”

“Senhorita Zé. Já basta a idade… Agora é senhorita”

“Tudo bem senhorita. Divirta-se e juízo então hein?”

O André chegou e logo ao entrar, ele lhe deu um selinho.

“Só um selinho para quebrar o gelo. Você está linda Mari. Mais do que nas fotos que me mostrou…”

“Para André. Agora estou com vergonha!”

“Você? Essa é nova…”

Ele deixou a mão pousada na coxa dela. Ela lembrou que era o jeito que ele sempre fazia quando saiam anos atrás. Ele devia fazer exatamente a mesma coisa com todas, mas ela achava gostoso essa situação e relaxou, de verdade, logo depois dos primeiros minutos. Ali ela teve a certeza que a noite seria bem proveitosa e divertida…