Ela ficou ali paralisada em seus pensamentos e tentando entender o motivo de não ter sido clara o suficiente com André…
Ela tentou ligar para ele outras quatro vezes naquele sábado. As ligações eram ignoradas. Tentou mandar mensagem, mas mesmo ele não a bloqueando, não teve resposta ou confirmação que ele tinha lido as mensagens. Provavelmente ele tinha apagado antes de ler e ela tentava explicar o óbvio, mas sem se expor que teve outros parceiros além dele. E claro que nunca contaria o que realmente aconteceu na semana anterior.
O sábado seguiu com a dor ainda latejando seu corpo, mas o que intensificava ainda mais, era a tristeza e a angústia que a dominava por completo. Ela mal conseguia andar por causa da dor, mas perambulava pela casa, sem energia e tentando ainda compreender o abismo que ela tinha sido jogada. Ou que ela mesmo entrou e caiu, como já havia se convencido no final daquela manhã.
Ela chorou em silêncio enquanto empurrava um almoço que não tinha gosto e nem vida. Ela estava apenas comendo por necessidade, não por vontade. Terminou o vinho da madrugada anterior e abriu outro. Era a última garrafa que tinha em casa, porque desde que André tinha reaparecido na sua vida, ela quase não bebia mais. Ela chorou mais ao lembrar disso e chorou ainda mais quando viu todos os últimos quatro meses virarem ruínas novamente. Ela deixou a televisão ligada apenas para ter um pouco de som, mas ela não sabia dizer o que estava passando ou tinha vontade de qualquer coisa.
Naquela tarde enviou uma mensagem para Marta e contou do ocorrido. Elas se falaram por quase 40 minutos. Ela não tinha contado todos os detalhes do dia com Ivan, mas sentiu que precisava se abrir com alguém “de fora” para que seus pensamentos se ordenassem de alguma forma que fizesse sentido. Marta tinha apenas ficado com o Ricardo, era esse o nome do amigo do Ivan, mas não tinha o contato do menino porque deu o número errado para que não tivesse conversas chatas posteriores. Era apenas um beijo inocente em uma noite divertida, nada além.
E mesmo que ela tivesse o contato, não fazia sentido começar uma conversa com Ivan para saber se ele tinha herpes e se tinha transado em algum momento com ela sem camisinha. Não fazia sentido e muito menos funcionaria dessa maneira.
Marta também concordou que em algum momento Ivan deve ter tirado a camisinha e tinha alguma ferida que Mari não tinha percebido, por conta do “calor do momento”, e assim a infectado. Apesar de que herpes pode se passar com camisinha, não fazia sentido ter sido André ou Pedro – Essa parte ela não contou, por conta dos “imbróglios” profissionais que ela não tinha porque expor ali. Até porque todas as vezes com Pedro eram com camisinha e ela via como ele era metódico nessa situação. Com certeza foi no descuido da sexta anterior. O período de manifestação também gritava para isso.
Marta demonstrou certa culpa por ter chamado a colega para o bar, mas logo Mari desconversou porque a loucura toda foi sua culpa e de ninguém além. A noite havia sido muito divertida e inclusive elas estavam combinando uma próxima oportunidade quando os amigos de Marta tocassem novamente.
Ao desligar do telefone, ela ficou ali em um completo silêncio, contemplando suas escolhas e resultados colhidos. Estava em um estágio inerte, mesmo sabendo que a montanha-russa da sua vida estava em uma queda sem freio e ela temia que ficasse nesse nível baixo por um longo período.
No início da noite enviou uma mensagem para Pedro.
“Oi Pedro! Tudo bem? Sei que a gente nem se fala muito, mas precisava te contar… Estou com herpes genital. Provavelmente peguei de um cara que estava saindo na semana passada. Sei que não foi você, mas apenas para que você saiba ok? Nos falamos. Um beijo.”
Duvidava que ele respondesse e talvez nem queria que respondesse. Ele não agiria como André, mas mesmo assim não queria ter uma conversa daquela no final do seu sábado.
Ainda sentindo um pouco de dor, tomou um banho, colocou uma roupa e foi dirigindo até o mercado. Comprou coisas de limpeza, algumas comidas prontas, frios e colocou três vinhos no carrinho. Depois decidiu passar no Mc Donalds. Sorriu sem vontade para os atendentes e dirigiu de volta para casa, quase não reconhecendo a pessoa no retrovisor. Seu olhar era profundo e sem expressão. Talvez houvesse medo ou era a angústia renascendo em seu interior. Não sabia dizer.
Comeu o lanche sem gosto e aproveitou para tomar a nova dose do antiviral. Em menos de uma hora, terminou a garrafa de um dos vinhos que havia comprado, mesmo sem saber se poderia ou não beber. Sorriu pela sua ignorância, já culpa do seu nível alcoólico. Deitou na cama e sentiu o mundo girar novamente. Pela segunda noite seguida, dormiu com lágrimas nos olhos…
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