E ela não sabia que seria a última vez que faria aquele caminho…

Quando saiu e bateu a porta apressada para seu fim de dia, ela não tinha ideia do que a esperaria. Ela viu uma bagunça de papéis, fichas e deveres na mesa, mas prometeu que na manhã seguinte chegaria mais cedo e arrumaria tudo. Ela não olhou o porta-retrato da sua cachorrinha, como sempre fazia nos fins de expedientes. Ela não sorriu ao passar pela portaria e muito menos se deu ao trabalho de retribuir o “Até amanhã” que o porteiro lhe lançou…

Engraçado que se perguntassem como ela estava no seu último dia, ninguém saberia responder, porque ninguém nota o cotidiano dos nossos dias. É um mal universal… Sempre deixamos para depois os detalhes da nossa rotina e esquecemos que o depois pode não existir…

Ela caminhava para o ponto de ônibus na esquina seguinte. Cortou caminho pela galeria de sempre, olhando as mesmas promoções impessoais e os cheiros do happy-hour do bar seguinte. Absorta em seus fones de ouvido e a música alta demais para não ser perturbada e tentar um relaxamento impossível, não reparou nas sirenes da polícia e na perseguição em velocidade que acontecia…

O carro a acertou em cheio e ela voou por cerca de 6 metros. Ela não se lembra qual era a música, qual último refrão e nem da sua última promessa… Ela caiu já sem vida, no chão da ótica que teve a sua fachada destruída pelo acidente…

E assim ela partiu, com tanta pressa e problemas na cabeça que acabou sem nada, em um chão qualquer que ele nunca havia reparado ou pensado que seria ali o seu último momento.