Eu me vejo naquele menino que brinca com sua bola, imaginando o momento e narrando um sucesso que nunca saiu da sua ilusão…

Sei como é a sensação de sonhar com o lance mágico, com o sorriso das pessoas e também de acertar o lance perfeito. Sei como é também o momento que sabe que se está sozinho naquele mundo de fantasia. Sei como é a melhor parte do gol e também a constatação que tudo é uma mentira criada para uma suposta diversão. Sei como é se alegrar por ter um passatempo saudável e também como é triste constatar que viveu por tanto tempo uma ilusão.

Mas ele continua ali, jogando e se divertindo… Como eu também ficava. Jogava bola sozinho por horas na minha infância. Criava campeonatos com cruzamentos complicados, enumerava nomes de jogadores que mesclavam nomes de amigos, famosos e possíveis “juniors” dos mesmos jogadores que eu acompanhava. Não cansava facilmente e por vezes só parava quando o almoço estava pronto e minha mãe gritava da janela para subir. Nesse momento criava roteiros com vitórias homéricas. De supostas derrotas, para viradas heroicas. Havia também as injustiças de lances incorretos e apoio de uma torcida apaixonada e barulhenta, mas sempre inexistente.

Eu parei para ver o garoto e fiquei pensando se ele sabia e fazia tudo isso também. Queria saber até que nível sua imaginação crescia e viajava… Fiquei imaginando como seria daqui a uns anos com a realidade cruel aprisionando seus afazeres e não dando trégua para jogos solitários. Fiquei imaginando suas futuras decisões e também como ele se sentirá com as tantas angústias da cruel realidade…

O celular tocou poucos minutos depois, me confirmando que a realidade ganhava novamente. Tive saudade de quando a vitória era heroica e a torcida apaixonada ficava feliz com toda aquela fantasia. Hoje a derrota é implacável. Mesmo assim, eu fui embora feliz. Deixei ali o menino gritando mais um gol dele com passe milimétrico do Messi – era esse o seu lance preferido que ele repetia sempre que possível.