Algumas vezes os planos não saem como deveriam. Ficam pendentes de um final feliz, mesmo que tudo tenha sido corretamente planejado…
Marcela foi embora ainda naquela mesma madrugada. Matheus não se opôs em nenhum momento e dormiu um sono culpado, tenso e curto. Despertou depois de apenas 5 horas de descanso e decidiu ir na academia. A academia era aberta 24h e então não teria problema de dar de cara com algo fechado naquele domingo de manhã. Fez uma série confusa e dispersa, apenas porque queria matar o tempo e tentar ocupar a cabeça com outras coisas. Menos de 1h depois, sem o objetivo alcançado, saiu dali e começou a caminhar sem rumo.
O domingo amanhecia preguiçoso e alguns senhores e senhoras estavam tendo as típicas conversas de vizinhos antigos. Foi em direção ao centro e encontrou uma bodega aberta. Riu para si mesmo quando lembrou que sua mãe havia ficado horrorizada com aquele local, que mesmo às 8h da manhã de domingo, já tinha seus clientes bebendo licores ou shots.
Quando entrou, logo o dono o reconheceu de outras vezes ali, mas não sorriu.
“Olá Manuel, bom dia!”
“Cedo, hein rapaz? Bom dia…”
“Insônia… Tem algum remédio bom?”
Agora sorrindo, Manuel serviu uma dose e indicou para que se sentasse onde quisesse.
Antes que pudesse perder Manuel de vista, virou o primeiro shot e pediu logo o segundo.
Manuel o serviu mais um, estranhando o jeito, mas logo o deixou sozinho e voltou aos seus outros clientes e conversas.
Matheus sentou-se no final do balcão, próximo ao pequeno banheiro da bodega, perdido em pensamentos que tentavam entender a razão de estar assim, da ironia do destino de encontrar Clara justamente no bar ao lado do que estava com Marcela. Mas, o que mais pesava em seu pensamento, era o fato de achar que toda aquela semana foi uma mentira. Ele sabia que havia mentido em alguns pontos, mas Clara foi a mais incisiva na questão de críticas aos relacionamentos temporários ou aventuras. Será que ela estava com Rodrigo antes e quis uma aventura com ele? Ou será que tinha conhecido no mesmo dia e agora estava provando para ver quem era melhor? Matheus não conhecia Rodrigo e não quis conversar sobre ele com Marcela na noite anterior, mas era nítido que um não tinha nada a ver com o outro. Aliás, a teoria que eles se conheciam há mais tempo se dava pelo fato que pareciam mais à vontade e sempre abraçados, enquanto com ele, ela evitava andar de mãos dadas na rua. Enquanto tomava o segundo shot, lembrou da manhã anterior e entendeu a razão de Clara estar tensa enquanto estavam indo para a estação. Provavelmente Rodrigo morava próximo e ela tinha medo que eles fossem vistos juntos. Sua mente vagava buscando algum outro ponto perdido ou melhor entendimento.
No meio do terceiro shot ouviu uma voz alta ao seu lado.
“Parece um pouco distante, meu filho” disse o senhor de seus 60 anos ou mais…
“Noite longa de insônia…”
“A insônia existe quando fazemos perguntas sem respostas…”
“E isso tem sua razão…”
“Anda, como sou completamente desprezível, pode me contar. Antes… Serve mais dois aqui Manuel, por favor”
Matheus percebeu que o senhor falava quase gritando a todo momento.
“Não sei se tenho por nem onde começar. A história é muito curta para ser aproveitada…” disse Matheus enquanto os dois shots chegavam no balcão. Manuel olhou fixamente para Matheus e sorriu com certa pena.
“Para deixar essa conversa mais pessoal e tranquila, esses malucos aqui me chamam de Cascata não sei porque.”
“Prazer, Matheus e eu acho que sei a razão…”
Cascata fez um desdém com a mão e pediu que ele seguisse sua história.
Matheus narrou toda a odisseia da semana. Relembrou detalhes inúteis, não ocultou nenhum pensamento e descreveu a cena da noite anterior com maestria. Até ele se assustou com a quantidade de pontos que se lembrava. Cascata ria alto das ironias ou de como algo aconteceu.
“E foi isso…” finalizou Matheus ao mesmo tempo que Cascata gargalhava tanto que o Matheus se contagiou com a risada dele e se juntou ao novo amigo rindo até quase chorar.
Manuel voltou a servir mais uma rodada para os dois e sem entender muito o que se passava deixou os dois loucos rindo sem parar.
“Veja como a vida é magnífica. A gente planeja tudo certinho, vêm Deus e nos mostra que Ele manda mais que qualquer coisa.”
“Pois é. A gente se acha irônico, mas sempre perdemos a queda de braço contra quem inventou a ironia.”
“Mas falando sério, pouco importa se o rapaz aí foi a aventura ou não. Se eles são namorados e você o amante. Concorda que você gostou e se sentiu bem? Normal… A vida é assim. Tenho saudade desse fervor correndo pelas veias e estar pronto para as donzelas da minha época… Ah fui feliz, não posso negar!”
“Não sou mais dessa molecada que podia ter três ou quatro aventuras na mesma semana, mas também não estou morto…”
“Precisa viver isso da sua maneira. Se antes eram 10 e agora são 5 bem feitas, tudo perfeito. Viva! O importante é aproveitar com respeito… Quando decidir casar e ter uma família, aí o erro já é imperdoável.”
“Exato. Estou longe de casar, mas tenho a mesma ideia. Quando decidir seguir em frente e casar, é para algo sério e construir algo sólido. Senão, fique solteiro…”
“Isso! Anda meu amigo… Manda uma mensagem para a Clara e resolva tudo isso. Vai saber se ela não está com as mesmas dúvidas? Você não é Deus para saber, jovem…”
“Tomamos mais uma e eu mando assim que chegar em casa…”
“Ô Manuel, chama a polícia que esse rapaz aqui quer matar o velho de beber…”
E riram ainda mais tomando o último shot abraçados como bons amigos.
Bêbado e gargalhando sozinho, Matheus subiu até sua casa. Eram quase meio-dia e resolveu pegar algo para comer no restaurante abaixo de sua casa e guardar uma marmita para o almoço do dia seguinte. Quando chegou em casa, tomou quase 1 litro de água, tomou banho e enviou uma mensagem para Clara antes de começar a almoçar. Não foi um texto grande, mas admitia a loucura que havia feito e se desculpava por qualquer mágoa que tenha causado…
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