Matheus se lembraria daquela tarde de domingo por muito tempo. As razões, conversas e o jeito que o sol se foi por dias depois…

Há algumas semanas não estavam mais se vendo. Não poderiam falar “terminamos”, porque oficialmente não havia iniciado nada, mas eles não estavam mais juntos. O motivo? Cada um teria uma lista de 3 ou 4 razões para aquela situação. Mas cada item era diferente e cada um teve o seu motivo e escolha para chegarem àquele fim. O que concordariam é que não houve briga ou crise escancarada por não terem mais vontade de saírem. Simplesmente a vontade de antes se perdeu em algum momento e não conseguiram encontrar uma nova forma de tudo ser como antes. Era “apenas isso”. Os amigos tentavam não comentar muito, mas há tempos já perceberam sinais que as coisas andavam se arrastando entre eles. Os dois também, mas por alguma razão inexplicável não conversaram sobre isso. Foram levando, pensando que iria superar de alguma maneira mágica, algo que não sabiam. Era o tic-tac cruel do fim se aproximando…

Ele quis ficar um final de semana sozinho e ela aproveitou para tirar férias de última hora, pagou caro nas passagens, mas foi viajar com sua amiga Paula. Foram 10 dias em que pouco se falaram ou trocaram mensagens. Apenas retomaram o contato quando ela voltou.

“Em casa! Agora preciso de férias das férias…”

“Bem vinda! Volta de férias é sempre complicado mesmo. Gostou?”

“Bastante! Lugares maravilhosos… Realmente vale a pena!”

“Fico feliz que tenha gostado. Sabia que você iria curtir…”

“Te trouxe um presente. Passo aí amanhã para deixar, tudo bem? Estará em casa?”

“Sim… Hoje vou sair com o Felipe, mas amanhã estou em casa o dia inteiro. Pode vir quando quiser. Lembra o caminho?”

“Tenho salvo no Google Maps, fica tranquilo!”

“Besta… Até amanhã então…”

“Beijos Má. Até…”

Depois daquela conversa, ele lembrou de como era a ansiedade no início do relacionamento com ela. Ironicamente, ele sabia que aquela mesma ansiedade agora chegava com outro pretexto – ele sabia que aquela visita significava o fim oficial deles e ela, pensou ele, estava bem disposta e certa do que fazer. Sem ele saber, ela tremia no outro lado. A forma irônica e fria que enviava as frases não eram nem de perto a maneira que queria agir. Sabia que o Matheus era o mais racional possível e mesmo sendo extremamente emocional, era a razão quem comandava os passos e decisões por ali. No fundo sentia muita falta dele e de tudo como era antes, mas sabia que não havia quase nada a ser feito agora. Por vezes desejou que houvesse uma briga generalizada ou uma discussão ofensiva, porque assim teria um motivo mais palpável para aquele fim. Do jeito que tudo correu entre eles, era uma angústia insuportável.

No dia seguinte, ela pegou o trem logo depois do almoço e refez o caminho que fez tantas e tantas vezes. Tinha um olhar nostálgico por toda aquela situação e relembrou pontos daquela história de meses que a deixou a ponto quase de chorar, mas se manteve normal.

Ele a esperava para almoçar ali, mas ela recusou o convite e disse que iria pela tarde. Essa recusa o pegou um pouco de surpresa e, para tentar domar a ansiedade que o consumia por dentro, resolveu abrir uma garrafa de vinho. A garrafa desapareceu em poucos minutos e logo preparou uma vodka-coca para tentar relaxar. A mistura não ajudou muito e almoçou já embriagado. Quando ela enviou mensagem que estava chegando, resolveu abrir mais uma garrafa e deixar aquela situação o mais leve e indolor possível.

“Sumida! Quanto tempo! Quer que te apresente a casa de novo?”

“Acho que seria uma boa. Eu não sei bem onde é a cozinha… Me mostra?” sorriu Clara.

A voz dele tinha aquela moleza típica do álcool e ela notou que aquela situação também não era fácil para ele.

Conversaram um pouco sobre a viagem e algumas curiosidades que ela viveu durante suas férias. Ele serviu uma taça de vinho também para ela, tentando amenizar aquela tensão antes do assunto que era o motivo para eles estarem frente a frente. Terminaram a garrafa e enquanto ele abria mais uma, ela tomou coragem para falar.

“Má, não adianta a gente mascarar. Eu não sei explicar o porque da gente chegar a isso, mas eu quero que você saiba que eu não tenho ninguém, não procurei ninguém, não estou interessada em ninguém e que realmente, pela primeira vez na minha vida, eu me vejo saindo de um relacionamento sem uma razão palpável e que eu consiga explicar para mim mesma.”

“Eu sei linda. Eu sinto exatamente o mesmo, mas mesmo depois de todos esses anos, eu ainda não consegui entender a razão disso. Eu não desejo chegar a este ponto, mas chega e acaba que eu não reajo. Não adianta falar que eu não gosto mais de você, que não te acho linda e não te admire mais… Não adianta porque seria mentir e eu não consigo mentir para você.”

“Sim, é angustiante, porque eu não sei como te ajudar…”

“E nem eu sei se preciso de ajuda.”

“Podemos continuar amigos, não?”

“Claro… Sempre amigos. Acima de qualquer coisa que fomos, antes fomos amigos e isso não abalou.”

“Eu sei. Sinto o mesmo.”

“Obrigado…”

“Queria apenas que saiba que gostei muito de todos os nossos momentos e gostaria que fosse mais fácil. Você poderia ser um imbecil e me trair, me xingar ou me bater, sabe? Porque aí eu não precisava vir até aqui e ter essa conversa.”

“Quer um soco?”

“Bem no meio da minha cara… Vem!”

Ao invés do soco ele a beijou. Era um beijo diferente de todos os outros que já haviam dado. Era um último beijo. Um selo de Adeus, que não era um Adeus, mas ambos sabiam que seguiriam suas vidas e encontrariam outros pares e nunca ficaria novamente juntos.

Eles se abraçaram uma última vez. Nenhum dos dois chorou. Deram um beijo no rosto no final e ela sorriu da mesma maneira que ele sempre lembraria e tentaria descrever em vão. Se despediram sem um adeus. Ela seguiu pela rua de volta para sua casa. Ele ficou olhando pela janela da sala, pensando que se ela olhasse para trás, talvez ele se declarasse e cometesse a loucura que tinha medo demais para viver. Ela não olhou e ele se viu ali, sozinho, com uma garrafa aberta de vinho que mataria para conseguir dormir aquela noite e sonhar que aquela situação nunca mais se repetisse, mesmo sabendo que não teria forças para lutar contra aquela sina de viver à mercê de uma solidão que ainda se repetiria muitas vezes…

FIM