Sou uma pessoa de rotina. Sempre acordo no mesmo horário e sempre faço os mesmos caminhos todos os dias para as mesmas tarefas…

Sempre gostei de fazer assim, mas por dificuldades e perigos anteriores, sempre mudava algo para não ficar marcado e de fácil abordagem. Agora não tenho mais essa sensação de perigo nos passos que dou ou nos caminhos que levo. Agora posso desfrutar de ter minha rotina igual e encontrar os padrões que tanto me encantam. Como todo mundo, desperto no mesmo horário e vou para minhas atividades sempre iguais. Cruzo, nessa dança desvairada de dias e vida, com muitos outros que como eu, têm a sua rotina ditada por horários e caminhos parecidos.

Sou daqueles que se cruzo com a mesma pessoa mais de uma semana, começo a dar bom dia – mesmo sendo ignorado 90% das vezes por aqui. Mas, como minha mãe sempre me ensinou, faça o que te faz bem, sem esperar nada em troca. Então continuo com o meu monólogo solitário nas minhas saudações pela rua.

E também reconheço as pessoas, por suas placas de carro ou moto. Tem um senhor que mora no meio do caminho da minha casa ao clube, que tem um Renault que a placa começa com KBK – ou seja meu apelido. Inconscientemente eu dou bom dia ao “Senhor KBK” todas as vezes que cruzamos no semáforo e ele passa acelerando muito mais que a scooter me permite chegar.

Outro, é um cara que mora na Barceloneta e trabalha na Polícia Civil aqui próximo de casa. Esse é mais tranquilo na sua moto e quando nos encontramos, sempre seguimos no mesmo ritmo até ele chegar ao trabalho e eu continuar meu caminho para casa. A placa dele? 5284 – Ou seja, a data que a Mika se foi, com o ano do meu nascimento. Outra mulher, que beira a minha idade, tem um C3 e parece enfermeira ou médica, pois está sempre vestindo branco, faz um caminho curto comigo, mas a sua placa é 3027 – quase a data inversa do meu aniversário. E sem contar o senhor que toma seu café às 7h25 da manhã, sempre na mesma mesa e enfeitada com uma flor diferente a cada dia.

Nesse mix de placas, semelhanças e datas remexidas, vou refrescando minhas memórias e criando histórias com esses personagens urbanos que mal sabem da minha existência. Mas eu sigo ali, preenchendo meus contos com suas semelhanças e criando enredos que povoam meus textos desconexos, deixando os mais vivos, mesmo sendo fantasia, e tentando adivinhar suas aflições, aspirações e sonhos.

Ao menos, é o meu remédio para enfrentar a rotina que muitos julgam nociva, mas que para mim é um prato cheio de inspiração e novidade, mesmo sendo quase tudo sempre a mesma repetição fria e incolor da nossa realidade…