“A mesa é só para um mesmo…” e a garçonete sorri como se fosse algo comum, mas ele percebe que cada vez mais não é…
O sorvete sozinho na tarde sem sorrir, o jornal amassado com notícias que não dizem nada além de palavras soltas. O prato postado e o sorriso que não encontra nenhum reflexo, nenhuma resposta. O café pedido sem querer, o erro apenas para criar uma piada pronta e a resposta vazia e sem emoção que nunca se espera.
Os passos são decididos por poucas diferenças, mas são do ponto A ao B, sem surpresas e com o celular guiando o próprio caminho. A companhia encontrada são as vibrações do aparelho que mostram conversas sem emoção aparente, mas que fazem matar o tempo, para que ele não o mate mesmo.
A comida esfria sem querer, os olhos vasculham cada lugar, mas se cansam, pois é difícil encontrar um reflexo de si mesmo nas outras mesas. Compartilha celebrações, cria diálogos, relembra momentos parecidos com o que acontece nas mesas vizinhas. Relembra cada diálogo feito e, algumas vezes, até jura que consegue sentir os sabores e cheiros daquela lembrança. Mas é apenas isso. Um simples lapso de algo que não existe. Que ficou para trás e nunca mais vai se repetir daquele mesmo jeito. Toda vez que relembra disso, termina o prato da maneira que encontra, pede a conta e sai se esquecendo de sorrir, pois queria realmente chorar…
O caderno ao lado da cama cria mil histórias e personagens, os vizinhos ouvem as suas conversas eufóricas, mas que são apenas monólogos, sem audiência – ele fala sozinho para matar essa ausência de contato tão necessária, antes que essa ausência o mate.
Suas poesias se perdem, foram melhores antes e acabam virando um retrato do que ele vive nos seus dias. Sua inspiração falha, as palavras somem e as ideias se repetem. Ele olha as inúmeras linhas criadas e que poderiam ser resumidas em 5 ou 10 parágrafos. Ele se torna uma redundância barata e fraca, do jeito que nunca desejou e que o faz afastar das primeiras edições…
O peso aumenta cada dia e sabe que se afastou do álcool como um escudo para não descontar em algo que o mataria de outra maneira, mas ele sabe que quando voltar o perigo é outro. Planos são traçados com uma promessa de tempos melhores, mas ele sabe que mesmo assim os mesmos objetos estarão presentes, com outros sujeitos, mas criando as mesmas orações…
As noites são inquietas e os sonhos pesados. São as lembranças acumuladas que começam a derreter o presente e criam um laço grande do passado, daqueles que se prende no espaço e tempo perdido. Se perder de um ponto qualquer para um outro ponto feito de pura ilusão, de puro faz de conta. O sol brilha lá fora, mas ele cansou de ver as mais belas cores, sem ter com quem compartilhar. A piada se esvazia, ele é mais um na multidão e se perde de tudo, de todos e até dele mesmo. Ele não queria assim, ele nem imaginava assim, mas foi o que acabou, após ruína da ruína.
“Você se incomoda se alguém dividir a mesa consigo?” – “Não, claro que não” e a esperança pelo menos de ter alguém para compartilhar da mesma desgraça anima o seu coração. Senta outro velho à sua frente, com olhos cansados, já derrotados da mesma vida. Ele não sorri e apenas fala “Sou igual a você, então nem perca tempo. Estamos sozinhos e morreremos nessa solidão.” e começa a comer sem mais diálogos. “Eu devia ter deixado o tempo me matar…” foi o que ele ouviu o velho balbuciar enquanto terminava o seu café e ia ao banheiro.
Ele decidiu deixar o tempo continuar sua ação e se pôs a andar para longe dali, não fugindo, pois ali entendeu que já estava derrotado, mas pelo menos queria morrer em movimento – se é que isso fosse fazer alguma diferença…
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