Ela abriu a porta e a pesada sacola denunciou o barulho de garrafas batendo. Sem esconder sua tristeza, aquele dia marcava dois meses que havia terminado seu último relacionamento…

“Terminar” seria algo até mentiroso. Ela havia sido chutada e traída. Era um quase noivado de oito anos que terminou meio que “do nada” e com toques e requintes cruéis. Tudo parecia ter saído de um livro mal escrito, sem roteiro e beirando o surrealismo. Mas era tudo real e a queda foi dolorida e complicada.

Há dois meses tinha colocado as malas do seu ex para fora do apartamento que eles compraram (70% ela – 30% ele) e agora, ao que tudo indicava, ele começava a nova vida com uma outra garota, 5 anos mais nova que ela, e que trabalhava no mesmo complexo empresarial que ele. Foi ali que, em teoria, tudo havia começado e ela não queria saber dos detalhes. 8 meses depois de comprar o apartamento, ela ainda estava aprendendo a como viver no seu “novo lar” e resolvendo as burocracias de móveis e contas que chegavam como enxurrada. Havia feito os gastos por dois e agora só ela estava equilibrando tudo ali. Então, enquanto seu ex recomeçava a vida com um novo relacionamento, ela também, mas com o álcool…

Há dois meses que misturava os remédios prescritos pela psiquiatra com doses seguras de vinho, vodca ou whisky. Misturava tudo isso para disfarçar o amargor e tinha um combo perfeito para conseguir dormir por horas sem lembrar de nada – sem sonhar com nada. Era mais uma sexta-feira que ela ficaria no Netflix, fingindo se importar com algo, enquanto esperava cair no sono mais profundo possível.

Enquanto esperava a lasanha congelada ficar pronta, se serviu de uma vodca com suco. Apagou as luzes da casa, abriu a garrafa de vinho que ela não conhecia, mas comprou porque no rótulo dizia ter 15% e ela pensou que seria melhor do que os 12% normais, serviu quase toda a taça e escolheu aleatoriamente algo na TV. Pegou o celular e ficou tentando encontrar algo interessante em uma rede social que todo mundo sabia ser mentirosa, mas que ninguém vivia sem.

Claramente não havia postado nada do término e preferia sofrer essa fossa no máximo silêncio possível. Apenas as amigas próximas sabiam, até para tentar ajuda-la, mas ela tentava negar o óbvio e fugia das necessidades fúteis que suas amigas tentavam empurrara-la. A notificação de mensagem chamou sua atenção. Era de André.

André era um ex-ficante, ou o último cara que ela havia saído antes de começar seu namoro/noivado. Isso era pouco depois de ter se formado e as loucuras deles sempre lhe fizeram bem. O caso deles rolou por anos e sempre intensos, temporários e sem frescuras.

“Oi lindinha! Tudo bem? Como você está?” dizia a mensagem que ela abriu e não sabia se deveria responder ou não.

Tardou como quinze minutos, terminou o seu prato de lasanha, tomou quase toda a taça de vinho enquanto o dedo ia e voltava do perfil do André e suas últimas fotos, com a mensagem ali, com suas perguntas simples, mas ainda assim inofensivas.

“Fiquei sabendo do que aconteceu. Está tudo bem, de verdade? Quer desabafar com alguém de fora?” era a segunda mensagem e ela entendeu que era possível ver que ela estava online e que havia lido a mensagem e não respondido. Ela riu sozinha em seu sofá.

Serviu o restante do vinho na taça e decidiu seguir o jogo.

“Oi André! Tudo bem? Quanto tempo… Estou bem e caminhando. Um dia de cada vez. Normal…”

“Oie! Tudo em ordem aqui. Imagino que é difícil, mas é um processo né?”

“Bem grande e complicado, mas Deus quis assim né?”

“Imagino… Vocês estavam juntos há quanto tempo?”

“Bastante.”

“Hmm… É difícil”

“É… Mas me diz, como você soube?”

“Ah… Relaxa! Ninguém fez fofoca. Apenas uma conversa de alguém que acha que se você conversasse com alguém de fora da sua rotina, ajudaria. Sem acusações.”

“Entendi… Mas queria saber mesmo.”

“Não vou falar ”

“Não lembro de ter joguinho entre nós.”

“Isso não é jogo. Só acho que não precisamos levar adiante isso. Sem julgamentos. Eu não contei para ninguém, porque realmente imagino que é uma situação complicada.”

“Obrigada. Agradeço a preocupação. Sim, é difícil, mas falamos ali que é um processo e vai passar…”

“Exatamente. Bom, vou te deixar em paz… Só queria te dizer que pode contar comigo se precisar desabafar ou se quiser espairecer um pouco a cabeça fora da sua rotina. Estou aqui.”

Ela demorou quase 10 minutos para mandar a próxima mensagem. Os tons da conversa estavam bem longe de serem indevidos e se ela estivesse mais sóbria, poderia até enxergar um pouco de preocupação real e sem más intenções no André. Mas algo nela, e depois da vodca e da garrafa de vinho, havia despertado sem aviso.

“E você? Solteiro ou já casou e eu perdi essa novidade?”

“Nada. Estou solteiro sim. Não tão na loucura, mas solteiro…”

“O que seria ‘nem tão na loucura’? Me ajuda que estou um pouco enferrujada nas definições…”

“Ah, aquela loucura de sair com um monte de gente e tal. Chega uma hora que cansa. Então as vezes fico meses sem sair com ninguém, aí conheço ou reencontro alguém e acaba rolando algo. Mas continuo sem pesar nada e por aí vai…”

“E sempre rola umas mensagens para as recém-solteiras?”

“Você está dizendo que eu só mandei a mensagem porque você tá solteira?”

“Ué, é a primeira mensagem sua sem ser de feliz aniversário que recebo.”

“Mas eu estava preocupado ué… Deve ser bem triste viver isso tudo.”

“De 0-10 qual foi o nível de preocupação real, André?”

“9.5 talvez…”

“E os talvez 0.5?”

“Ahhhhh… Ué… É crime?”

“Não não. Nenhum…”

“Mas é preocupação real mesmo… E nem forço nada para o restante não…”

“Não?”

“Te juro”

“E se eu quiser?” – Ela se arrependeu logo depois que enviou a mensagem. Poderia deletar, mas ele foi mais rápido na resposta

“Oi? Sério mesmo?”

“Não… Desculpa. Ainda não estou pronta. Saiu sem querer”

“Você tá bebendo né?”

“É tão evidente minha taça de vinho?”

“Taça?”

“Sim. É que estou fraca mesmo para essas coisas”

“Relaxa Mari. Não vamos forçar. Tudo tem seu tempo… E fazem anos que não nos vemos. Nem tem porque pensar nisso agora. Calma.”

“Sim. Verdade. Desculpa”

“Hey, sem essa de desculpa… Tá tudo bem. Você sabe que pode conversar comigo sobre tudo e a hora que quiser. Sempre foi assim. Isso não mudou.”

“Que bom. Obrigada.”

“Bom, pega meu Whats se precisar e aí conversamos mais fácil que aqui, que é meio ruim de notificação e tudo mais.”

“Ok. Vou anotar e te mando uma mensagem lá.”

“Perfeito. Vai ficar de boa no final de semana?”

“Sim… Talvez termine o vinho amanhã e ficarei descansando com filme em casa… E você?”

“Nada de mais. Tenho aniversário do Renato amanhã, vamos fazer depois do futebol com o pessoal todo. Depois ficarei em casa porque tenho uma apresentação na terça-feira para a diretoria da empresa e vou preparar e repassar todos os pontos…”

“Ah! Que excelente. Nossa o Renato! Lembro dele… Que bom. Divirta-se”

“Não vou mandar lembrança para ele não, relaxa… pode confiar.”

“KKKKK… Obrigada. Melhor assim”

Eles estavam se despedindo normal e ela se sentia estranhamente leve. Abriu a segunda garrafa de vinho e se serviu da mesma maneira da primeira. Ficou olhando o celular com a notificação do WhatsApp que agora já tinha o contato do André salvo. Uma parte da sua cabeça dizia que ela estava sendo um pouco inconsequente, mas a outra gritava que não era nenhum crime tudo isso e que ela havia sido a vítima dois meses antes. Ela estava solteira e precisaria se relacionar novamente hora ou outra, e seria bom ter um primeiro reinicio com alguém que ela já conhecesse e se sentisse bem.

Mais ou menos 1 hora depois, o assunto já havia morrido, mas antes dela cair em um sono profundo resolveu enviar a mensagem final. Viria o resultado apenas no dia seguinte, mas quem sabe seria uma boa maneira de começar seu sábado?

“Oi André. Terminei a garrafa de vinho e queria te dizer que gostei muito de receber suas mensagens. Talvez poderíamos empurrar aqueles 0.5 para 5? Não agora para o final de semana, mas quem sabe para depois da sua apresentação? Ou celebramos ou afogamos nossas angústias entre uma cerveja e outra? Um beijo gostoso e boa noite.”

Talvez ela tenha se arrependido do “beijo gostoso” no final da mensagem, mas não teria tempo e nem capacidade de raciocinar melhor. Ela acordaria no dia seguinte, sem hora exata, lavaria a cara da melhor maneira possível e veria se a mensagem teve sucesso ou não. Ela agora apagaria e teria certeza que não sonharia com nada, mesmo querendo relembrar das últimas noites que teve com o André, mais de 8 anos atrás…