Eu tentei descentralizar os principais da Histórias da Rua da Ladeira, tornando cada parte única e independente, porque acreditava que cada um tem suas próprias ladeiras em vida. Porém, haviam duas pessoas que para mim eram o norte daquela trama, por sua dinâmica e tensões causadas na rua – Era o Casal.
Eu nunca conversei com eles, não sabia seus nomes e o que faziam. Eram estrangeiros, a única certeza aqui, simplesmente porque não falavam o idioma local. Porém, eles tinham a dinâmica de casais apaixonados e que levam a vida tão harmônica, como frágil. Sua pequena varanda era composta por flores, uma mesinha e sempre tudo muito organizado e limpo. Os vi a primeira vez quando voltava da academia, perto das 8h da manhã, com ele saindo para o trabalho e ela na varanda mandando beijos e desejando um bom dia (ou parecia isso na língua que eu desconhecia). Essa cena se repetiu algumas vezes e aí eu criei toda a temática do capítulo deles na trama.
Outra parte contada bastante real, era a música ao fim da tarde. Quando eu voltava do mercado ou de algum outro lugar, no final da tarde – perto das 19h mais ou menos, e quando o tempo estava quente o suficiente, eles colocavam alguma música leve e tranquila para tocar, provavelmente enquanto descansavam do dia ou preparavam o jantar. Como falei antes, era de uma harmonia tão intensa que parecia ser duradora…
Não me lembro exatamente o dia, mas era meio de novembro. O tempo já estava esfriando e a chuva já dava as caras por Lisboa. Eu estava indo para a academia, por volta das 6h30 e ela estava com duas malas esperando um uber na frente do prédio que morava. Quando avistei de longe, pensei que era como férias e que ela estava esperando seu marido/namorado, mas caminhando mais próximo pude ver os vasos quebrados no chão bem ao lado e que a porta do prédio estava fechada. Segui meu caminho, mas aquela cena ficou na cabeça. Quando voltei para casa, vi que os vasos eram da sua varanda e que tudo estava meio bagunçado e com os vasos faltando, espatifados no chão.
Dali em diante tudo mudou. Cruzei algumas outras vezes o rapaz indo trabalhar e com um espírito/aura diferente – como se tivesse tenso ou triste. Mas algo sem cor definida e sem a leveza de antes. Não se tinha mais música e o apartamento ficava sempre as escuras, apenas com o brilho da televisão ligada e as cortinas fechadas. A varanda aos poucos foi perdendo também o charme. Se notava a sujeira. A mesinha estava desmontada e as plantas morrendo pela falta de cuidado…
Quando retornei à Lisboa no janeiro seguinte, o apartamento estava para alugar e em algum momento daqueles 45 dias que fiquei fora, tudo acabou. Não sei desde quando eles moravam ali, mas os vi a primeira vez em abril, então coloquei que tudo foi rápido, intenso e devastador. Até tentei buscar na internet fotos do apartamento para tentar ambientar o texto melhor, mas não consegui e desisti da ideia.
A temática do Casal estava montada e pronta também para ser parte da “Histórias da Rua da Ladeira”, não apenas pelo característico dinamismo que a vida apronta, mas também porque toda rua aconchegante tem o seu casal apaixonado e simbólico. Infelizmente, muitas vezes esse amor é frágil demais e por motivos além do conhecido, se quebra e fica impossível retornar ao que era antes. Assim como em nossas vidas, somos um pouco assim e essa é a mágica necessária. Todos somos um pouco do Casal – intensos, harmoniosos, frágeis, quebrados pela desilusão e, quando tudo termina, buscamos novos ares e novas histórias, torcendo para que o final seja diferente, de uma forma ou de outra…
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