Talvez fosse melhor falar “O louco que de louco nada tem”, porque conhecemos muitos lobos solitários em nossa vida. Talvez na rua que você more, tenha um ou dois desse “exemplar”…

São essas pessoas mais quietas, inofensivas, mas que parecem carregar tristezas e desilusões demais em seus ombros. Pode chamar de rockeiros ou góticos loucos, mas nem sempre são assim…

O Solitário foi o primeiro texto que fiz, antes inclusive de criar toda a história e deixei guardado para tentar encontrar uma temática melhor para encaixa-lo. Ele não morava na Conceição da Gloria, mas próximo dela. Quando resolvi criar a História da Rua da Ladeira, o transportei algumas quadras antes e dei vida ao nosso Solitário que tanto guiou outros pontos soltos por ali…

Na verdade, o vi apenas duas vezes na vida. Ele morava no “térreo” de um prédio que, como ele, parecia que ia desmoronar em poucos meses (mas não aconteceu, passei lá anos depois e o prédio continuava o mesmo…). As duas vezes que o vi, foram tardes de sexta-feira. Ele estava fumando na janela do que parecia ser a sala, tomando uma cerveja que tinha um aspecto quente e rançoso, e um olhar perdido em mil pensamentos. Quando passei por ele, ele me olhou e “recolheu o braço” por causa do cigarro. Respondi um automático “Tranquilo… Boa tarde!” e passei adiante. Ele pareceu se assustar e depois de uns 10 segundos respondeu “Boa tarde!” com o sotaque português característico. Acenei e vi que ele nem me olhava, já estava de volta aos seus pensamentos…

Semanas depois, não sei dizer quando, novamente a mesma cena, porém com música. Ele ouvia um Bon Jovi e parecia mais “desperto”, porém ainda carregava aquela tristeza tão típica do estilo. Estava do outro lado da calçada, então pude ver a cena que ficou emblemática no capítulo: Ele cantando a plenos pulmões o pré-refrão da música “You Give Love a Bad Name” – que diz “No one can save me. The damage is done…” e pausou para um trago profundo no cigarro enquanto o refrão mesmo explodia dentro do seu apartamento “Shot through the heart and you’re to blame… You give love a bad name” – o problema é que essa música fica “um pouco” (para não dizer MUITO) na cabeça e naquela tarde escrevi o texto base do Solitário, colocando suas angústias e levando a música central como alguém que perdeu o amor da sua vida e não conseguiu se reerguer ou continuar o caminho normal da vida.

Como concluí no “Histórias da Rua da Ladeira”, os personagens eram muitos, mas ainda assim tinham pontos em comum, talvez se transformando em uma pessoa só. “Uma ruela que tenha diversas versões da mesma pessoa e que mostram suas batalhas e evoluções. Seus muitos erros e, talvez poucos, acertos. Suas aflições e descobertas. Suas liberdades e extravagâncias…”. Se o Casal era o norte da trama, como comentei anteriormente, o Solitário é o principal ponto que liga todos os outros personagens de uma maneira única e homogênea. Ele poderia ser o Ramon, cansado e carregado do tempo, mas com histórias e lutas para contar. Ele poderia ser o futuro do rapaz que acabou seu relacionamento e não conseguiu virar a página. Ele poderia ser eu, você e todos os demais, porque temos nossa fase solitária, introspectiva e até sombria.

Logo depois que conversei com o Ramon e resolvi juntar os pontos criando toda a trama, o Solitário foi o segundo capítulo exatamente porque ele poderia ser a versão anterior (ou continuada) do Velho. Como também o futuro do rapaz do Casal ou até mesmo do estudante. E assim, eu teria a junção heterogênea mais homogênea que existia…

E sim, pode buscar e ouvir a música do Bon Jovi que eu sei que você está cantando ela também…