Escrevo muitos talvez nas linhas abaixo, porque não consigo chegar a conclusões. A cada novo pensamento, uma centena de possibilidades brotam e me confundem ainda mais…

Mas, talvez eu esteja escrevendo essas linhas para externar os demônios que levam já décadas me consumindo internamente. Me consumindo por deixar escapar a mulher que mais amei na minha vida. Me consumindo por ter errado tão infantilmente, quando já não tinha mais essa justificativa…

Talvez fosse mais um daqueles encontros planejados por Deus, que criavam uma ebulição na vida e Ele o fazia para testar nossos controles emocionais e nossa sanidade. Poderia ser isso, como também poderiam ser outras casualidades de uma vida tão sofrida que finalmente buscaria uma melhora. Ou talvez nada disso e foi apenas um encontro qualquer. Mas, aconteceu e não posso negar que a crise de insônia dos dias seguintes foi fruto de uma ansiedade que beirava a surrealidade. E, por ironia maquiavélica, quando consegui dormir novamente, sonhei com ela. Daqueles sonhos que parecem reais – com textura, perfume e até sons cotidianos ao redor…

Eu seguia a minha rotina de ir ao mesmo mercado, porque assim já conhecia a disposição dos itens e preparava minha lista de acordo com o “caminho”, para facilitar e ser mais rápido. Fazer compras nunca foi meu passatempo predileto, então para que gastar mais tempo do que o necessário? Chegava à sessão de legumes e a avistei de longe. Era a primeira vez em quase 10 anos que a encontrava. Ela estava exatamente como da última vez que a vi. Sua beleza sempre foi algo que beirava o inexplicável e era tão natural que chocava. Os 10 anos não haviam adicionado nada no seu rosto. Nem uma simples ruga. Ao contrário de mim, que já parecia ter 15 anos a mais que a carteira de identidade dizia e, de tanto sorrir para encobrir meus demônios e frustrações, a minha cara já estava com marcas profundas de uma máscara que agora não teria mais como tirar…

Nossos olhares se cruzaram e pude perceber um certo espanto no seu olhar. Ela sorriu, baixando os legumes no seu carrinho e vindo me abraçar. Não éramos amigos – não trocamos mensagens e nem nada. Nos últimos 10 anos, se conversamos 10 frases foi muito – e faziam quase 6 anos que eu não sabia nada dela, mas não existia ódio entre nós. Existia um término de relação que foi completamente difícil para ela e nunca mais nos falamos. Mas, com o tempo passado, se nos encontrássemos um dia ao acaso, como naquela tarde, certamente nos cumprimentaríamos normalmente.

“Que surpresa Má! Nossa!”

“Oi Nath… Verdade! Nem sabia que você estava no Brasil. Férias?”

“Não. Voltei de vez fazem uns meses. Fui promovida e, para variar, a posição era para cá. Esse ioiô cansa um pouco, mas era uma boa oportunidade, então inclusive para a Maitê seria melhor que voltasse…”

“Ah verdade! Nem sabia que se chamava Maitê. Quantos anos já tem?”

“3… Começou na escola. Lá seria complicado, ainda mais com as mudanças de governo e tudo mais… A Argentina está bem ruim.”

“Hmmm… A gente escuta um pouco sim, mas está tão ruim quanto falam?”

“Talvez um pouco pior. Talvez nem tanto… Sabe como é. Mas em uma escala geral, acho que aqui será melhor… O futuro não sabemos, então, foi o melhor a fazer.”

“Sim Sim… Fico feliz por isso.”

Houve um silêncio de alguns segundos. Aquele cenário que, mesmo depois de tanto tempo, não sabemos o que falar ou o que fazer.

“Mas e você?” perguntou ela para quebrar o gelo

“Nada de novo. Ainda por aqui, ainda no mesmo trabalho, mas em outra área e com mais coisas… O de sempre…”

“Seus pais? As dogas? Não é assim que você as chama? HA HA HA”

“Tudo bem… A Mika se foi em 2014, depois de lutar com câncer e tal…

“Ai Má! Nossa… Que merda! Desculpa… Não sabia…”

“Sem problemas, é a ordem da vida não?”

“Sim, mas vocês eram….”

“Conectados além o explicado, sim… Mas…”

“Eu nem imagino como foi…”

“Pois é…”

“Meus sentimentos de verdade…”

Ela pegou na minha mão e deu um daqueles sorrisos de compreensão que tanto fazemos, mas o dela levava algo absurdamente belo e poderoso. O toque era leve e você conseguia sentir o perfume que suas mãos carregavam. Era algo tão intenso, que chegava a hipnotizar. Os olhos dela eram cor de mel, mas um mel tão vivo, brilhante e intenso, que creio ser impossível de reproduzir até para um Gaudi ou outro artista poderoso que você possa pensar…

Consegui balbuciar um obrigado e ela ainda apertava minha mão, sorrindo com aquele olhar fixo em mim…