Era ainda uma cena que me impactava. Depois de quase uma década, finalmente estávamos frente a frente conversando sobre banalidades de uma vida comum…
Ficamos mais alguns segundos em silêncio e eu apenas tentava controlar a minha vontade de gritar todo aquele livro mal escrito sobre a gente que me queimava por dentro e que não fazia mais sentido.
“Você continua exatamente como há 10 anos…”
“Para, Má! Estou velha e acabada já… Gasto milhões em cremes e parece não fazer efeito…”
“Te juro, sabe que eu não minto por nada.”
“Você está cego… Até olheira eu tenho, mas foi por um bom motivo. Ser mãe é um sentimento e uma sensação inimaginável! Te juro!”
“Eu posso imaginar…”
“Ainda com a ideia fixa de não ser pai?”
“Eu não penso mais nisso… Não tenho ninguém, então é algo que já não me preocupa…”
“Nossa Má! Duvido que esteja sozinho. Você sim mudou, está até mais forte. Vejo pelo braço”
E ela passou as mãos pelo meu braço e aquele contato me paralisou o sangue. Eu inclusive recuei com o choque e ela meio ficou sem graça com a situação.
“Eu estou careca e mais velho… Já tenho cara de 50 anos, nem chegando aos 40. Ou seja, já já eu me vou…”
“Ahhhhhh nossa! Tem essa ainda?! Não acredito! Quantos anos eram mesmo?”
“42…”
“Isso! 42… Se chegar aos 43, eu ganho a aposta que já nem lembro o que era… Mas eu lembro que apostei”
“Vamos ver quem está certo…”
“Tu sempre foi bobo HA HA HA”
“Ué… Eu tenho as minhas certezas, né?”
“Bobo! Eu ganho fácil a aposta…”
“Eu nem pensei no teu prêmio, porque eu vou ganhar. Mas se te deixa feliz, pensarei na compensação financeira…”
“Por favor!”
“Mas, mudando de assunto… E como estão as coisas? Apesar da promoção, foi boa? Conseguiu se readaptar ao Brasil?”
“Olha Má… Tão indo. Não fazem 3 meses, então o apartamento que a gente arrumou está uma bagunça. A gente veio com uma boa parte, mas a grande maioria das coisas veio de navio, então demorou horrores. Chegaram há menos de duas semanas. Então a vida por agora está no automático de trabalhar e desencaixar as coisas para tentar fazer sentido novamente…”
“Ah imagino! Querendo ou não é um recomeço. E aí tem toda essa vida em caixas que precisa fazer caber na vida nova. Mas é uma fase. Certeza que em menos de 1 mês já estará tudo resolvido.”
“Deus te ouça. Tem tanta coisa que nem sei como vou fazer. O apto lá era bem grande e o daqui não é pequeno, mas os móveis são diferentes… Mas tudo bem! O que a gente não for precisar, vou doar e compramos novos… Está tudo bem…”
“Verdade. Nem quero pensar quando for mudar, porque como montei o apartamento do zero, tem coisa ali que certeza que não caberá em outros lugares. Então será complicado…”
“Ah sim, certeza! Mas faz parte. Está pensando em se mudar?”
“Não não… Só um exemplo de possibilidade mesmo…”
“Ah tá…”
Havia meio que extrapolado o tempo de uma conversa informal de “conhecidos” que não se viam por muito tempo. Não faria mais sentido jogar assuntos aleatórios para tentar esticar mais um encontro que era improvável há menos de 10 minutos. Então, resolvi terminar aquele encontro que talvez fosse perpetuar por alguns dias em minha cabeça…
“Bom… Te deixo aí com sua lista, porque também preciso correr com as minhas coisas aqui…”
“Ah… Tá… É. As compras… Já que começa a esfriar, vou preparar uns caldos para a Maitê e aproveitar para fazer minhas sopas… Ainda não gosta?”
“HA HA HA HA… Não… Isso não mudou!”
“Não sabe o que está perdendo…”
“Talvez, mas prefiro manter minha ignorância desse assunto HA HA HA”
“Um dia você vai se arrepender…”
“Ah… Isso também já está superado. Será apenas uma coisa a mais na longa lista…”
“É, Má? Tem muitos arrependimentos?”
“Opa… Quase uma infinidade. Mas é isso Nath…”
“Tá…”
“Excelente te ver… Te desejo muita sorte nesse novo capítulo. E um beijo enorme na família toda…”
“Obrigado Má… Bom te ver… Fico feliz de te ver… De verdade!”
“Eu também Nath… Sempre bom falar contigo…”
Não nos abraçamos. Não nos beijamos no rosto. Foi apenas mais um aceno, com um aperto de mãos, onde pude novamente sentir aquele poder que só ela tinha na minha vida. Eu nunca tinha conhecido ninguém com aquele poder todo. Talvez fosse algo que eu duvidasse que existisse alguma outra pessoa capaz daquilo.
Eu sorri. Ela sorriu e se virou para voltar ao seu carrinho. Eu a acompanhei com os olhos, vendo como ela parecia flutuar no meio das pessoas. Como ela fluía levemente, de uma maneira tão natural, mas ao mesmo tempo potente e segura.
Eu ainda sorria quando ela se virou de repente e sabendo que eu ainda sorria, me disse…
“Sabe, Má. Pode parecer cliché, mas eu sabia que te encontraria hoje…”
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