Quando ela terminou a frase, parecia que ela iria desabar. Era como se suas forças e convicções estivessem evaporado da sua vida…

Eu fiquei sem reação e completamente perdido na situação. Talvez eu tivesse esperado por aquela conversa anos antes. Talvez eu estivesse querendo fugir dali. A única certeza é que eu estava mais perdido que ela e não sabia o que falar. Balbuciei algo, mas a minha voz não saía. Ela percebeu o choque e tentou amenizar o clima criado.

“Desculpa Má! Parece loucura. Talvez seja… Mas não sei…”

“Desculpa eu. Mas por que você acha isso?”

“Sinais. Não sei explicar. Mas, não faz sentido… Mas é o que eu acho.”

“Ok… Vamos ser mais práticos. Por que você pensa isso?”

“Ele tá jogando futebol…”

“PORRA… E DAÍ?”

“E daí que ele não é você. Em 10 anos… Desculpa. 9 anos. Ele nunca jogou”

“Nem eu mais.”

“O quê?”

“Ferrei o joelho…”

“Nossa Má! Sério?”

“Sim… Mas relaxa. Você sabe que eu ia até estourar o joelho…”

“Faz tempo?”

“Uns anos… E sim, eu lembro exatamente da data do último jogo… O tema não é esse…”

“Ele está jogando futebol toda semana. E é esquisito.”

“Ele está jogando. Eu não. Mudanças acontecem. Eu joguei com vários caras ‘velhos’ que nunca tinham jogado na vida. Eram bem ruins, mas foda-se… O fato é que eles estavam lá e jogavam…”

“Ele nunca se machuca”

“Esses caras também não. Porque uma coisa é jogar como eu jogava – tipo alucinado e feroz. Outra é essa galera mais velha que não tem pique e só quer passar o tempo…”

“Ele finge estar cansado ou com dores, mas eu percebo que é fingimento.”

“Sei lá… Não acho um argumento forte.”

“Onde estão as borrachinhas?”

“O quê Nath?”

“Você lembra quando você teve aquele campeonato sei lá quando, que você foi para minha casa logo depois do jogo, e aí teve que subir com a sua mochila e encheu a minha área daquelas borrachinhas? Lembra que você ficou limpando todos os dias do fim-de-semana porque sempre achava mais e eu rindo porque a faxineira viria na segunda-feira?”

“Sim, lembro… O que que tem?”

“Como na minha casa não tem borrachinha?”

“É… Bom ponto! Mas talvez a quadra dele é diferente. Isso acontecia em 2011, hoje as coisas podem ter mudado. Ele pode limpar a chuteira fora, sei lá… No carro não tem?”

“Não. Nada…”

“Ok! E as roupas?”

“Eu lembrei que você passou algo assim com a sua ex… Ele chega direto e põe as roupas para lavar. Tipo imediatamente… Como se fosse um veneno. Outro dia gritei para ele esperar porque ia colocar outras coisas para lavar junto, para ver se as roupas estavam suadas e tudo. Ele ignorou e ligou a máquina direto. Te juro…”

“Hummm… Suspeito.”

“Disse que não ia misturar roupa do futebol, da sujeira do campo, com roupa de casa… Mas era tipo coisa banal…”

“É… Tá… Ok… Parece esquisito… Mas você sabe onde é a quadra? Porque em teoria é sempre no mesmo lugar, mesmo horário e afins…”

“Ele comentou por cima, mas não exatamente.”

“E quem arrumou esse jogo para ele?”

“O pessoal do trabalho… Ele disse que começou a ir porque, já que estávamos de volta ao Brasil, ele precisava arrumar amigos novos, se enturmar com os antigos e tudo mais. No início eu achei uma ideia super boa, porque realmente fazia sentido. Mas, depois fui me ligando nos sinais e realmente não fazia muito sentido… O tênis dele tem poucas marcas. Tá praticamente novo…”

“Tá Nath… Calma! Você disse que voltaram para o Brasil há menos de 3 meses. Que a vida toda está uma bagunça. Qual a parte prática dele, com tanta coisa para resolver, teve tempo de arrumar uma mina X, marcar com ela TODA SEMANA no mesmo horário e inventar toda essa história para vocês?”

“É… Mas, ele trabalha remoto. Sempre trabalhou. Então pode ter tido tempo, não?”

“Mas então ele não fez nada da mudança? Não ajudou em nada em achar o apartamento, mudança, instalações, etc etc?”

“Sim… Tem feito tudo isso… Mas… E se for uma menina antiga dele?”

“Tipo uma mina de 10 anos?”

“Tipo uma Nathália e um Matheus…”

“UAU! Essa foi forte…”

“Besta. Sério… E se ele me traísse antes e eu não descobri? Fomos embora, eles mantiveram contato e agora estão ‘retomando a amizade colorida’?”

“Você ia ter desconfiado antes Nath…”

“Não sei Má. Sou meio idiota…”

“AH CLARO! Sempre percebi isso mesmo”

“Má, falando bem sério, eu confiava nele e então não tinha porque pensar em coisas diferentes…”

“E agora não confia mais?”

“Eu estou desconfiada… Estou louca?”

“Eu acho improvável. Se ele fizer isso mesmo, sério… Caralho…”

“O quê?”

“Nada… Mas acho improvável. A história das roupas e afins, pode ser suspeita. Mas o timing é muito curto para ter um compromisso desse. Pode ser outra coisa. Pode ser alguma coisa mais absurda… Conhecia uns caras que tinham namorada e talz que não contavam que estavam indo para poker e afins, porque as minas eram contra e iam encher o saco… Ou até ele pode ir para puteiro… Que horas é o jogo?”

“20h…”

“E ele chega em casa?”

“22h… 22h15”

“Ah… Não… Nada… Parece um jogo de 1h30… Ou 1h. Ah… Ele também toma banho no jogo?”

“Sim… Estranho né?”

“Não… Normal até. Muita gente tomava. Mesmo indo para casa… Isso acontece.”

“Hmmm….”

“Eu acho que não é nada… De verdade, Nath.”

“Eu não sei. É que parece não encaixar. Sei lá…”

“Essa mudança toda também pode ter impactado ele… Assim ele precisou repensar alguns hobbies para ter os amigos daqui… Pode acontecer.”

“Ou pode ser uma traição…”

“De hora marcada? Sério Nath? Você conhece alguma amiga sua que está saindo com um cara casado, mas que só saí com ele por 2h durante 1 dia da semana e faz a foda com alarme e tudo para que ninguém desconfie?”

“Ela pode também ser casada…”

“E aí acharam um dia e um momento bom para os dois? Uma terapia sexual…”

“As vezes ele vai tomar cerveja com o pessoal também outros dias. Assim que podem se ver mais de uma vez na semana.”

“E volta fedendo a breja?”

“Sim…”

“Então ele vai beber…”

“Sim… Mas…”

“Calma Nath… Relaxa… Pode ser, mas eu duvido muito…”

“Eu não sei Má…”

O tempo avançava e ainda estávamos ali, no meio da sessão de frutas e legumes do mercado, conversando como se fossemos amigos distantes. Não notei no tempo, mas facilmente já estávamos ali há mais de 10 minutos. Ela ainda se mostrava um pouco aflita, mas já conseguia notar alguma mudança na sua postura. Como se aquela conversa, com alguém totalmente alheio à sua realidade, tivesse ajudado a limpar alguns pontos na sua cabeça.

Eu não sabia bem como me sentia ou até como terminar o assunto. Não faria sentido pedir seu contato e ir “conversando para ajudá-la”. Estávamos uma década separados, então não teria porque agora retomar um contato. Como também, não teria porque ter essa conversa ali – ou, pensando mais concretamente, não fazia sentido a gente ter qualquer tipo de conversa. Depois do que aconteceu, do que eu fiz ela passar, não fazia sentido estarmos ali.

Eu pensava no que falar em sequência quando ela pegou meu braço novamente e me abraçou. Era a terceira vez, em talvez 10 minutos, que ela me quebrava de todas as maneiras. Não era um abraço romântico. Era mais como se ela precisasse se sentir amparada. Ela se aconchegou nos meus braços e me apertou um pouco para próximo dela. Eu senti o perfume do seu cabelo, mesclado com o perfume do seu corpo, e aquilo me transportou décadas antes quando aqueles perfumes eram parte dos meus dias. Naquele momento eu suspirei, vencido por todas as minhas derrotas, arrependimentos e tristezas, e beijei o topo da sua cabeça, enquanto a abraçava forte, para que aquele momento durasse para sempre. Como se aquele abraço fosse a última coisa que eu faria na minha vida. Como se aquele abraço redimisse todos meus pecados, erros e arrependimentos. Como se aquele abraço fosse meu último suspiro…

“O meu sonho terminou exatamente assim. Exatamente com esse beijo.” Disse ela ainda abraçada em mim.

Eu apenas fechei os olhos e me embalei no seu perfume e abraço, que dizia tanto quanto os mais poderosos sonhos que tive em vida…