Sempre comentei que iria até meu joelho estourar. Sempre soube que seria uma atividade finita e que esse fim chegaria…
Desde que me conheço por gente eu jogo futebol. Minha primeira escolinha foi no Santa Cecília em 1991, onde a gente mais jogava do que aprendia. Acho que era um jeito do cara ganhar dinheiro e a gente ficar chutando uma bola, achando que fazia alguma coisa… Meses depois, meus pais me mudaram para uma escolinha de clube e ali comecei realmente a aprender seus fundamentos – Lateral, domínio, posição, cobertura, etc.
Além da escolinha, eu tinha meu pai, que sempre mostrava o caminho ideal. Foi ele quem me “obrigou” a chutar com os dois pés. Foi ele quem me mostrou como chutar sem ser de bico. Foi ele quem me ensinou a correr e também a noção que “drible e jogada bonita, perde o jogo. Se você jogar direito, pode ser que não perca…”.
Depois de um tempo começamos nos torneios e minicampeonatos e o resto que é história… E lembro ainda da primeira vez que tinha 3 jogos no mesmo dia, “cansado você fica em casa amanhã… No jogo, dê sempre o máximo que conseguir. E respire sempre que puder para ter energia de volta…”.
Futebol sempre foi mais do que um passatempo. Sempre tratei como atividade da vida. Jogava em Santos, na época de colégio, mais de 3x na semana (e durante as férias era praticamente todos os dias). Joguei em praia, campo, quadra, na escola e onde quer que tivesse um jogo e precisando de gente. Joguei em times e participei de inúmeros campeonatos de praia. Ganhei vários onde o prêmio era um lanche de graça no quiosque do organizador. Como tínhamos 12/13 anos, era excelente…
Quando mudei pra Campinas continuei na saga e tive que me adaptar ao Society e campo, pois era incrivelmente mais fácil arrumar 15 para jogar Society do que 10 para um salão (e lá também não tinha praia). Com isso vieram outras turmas, outros campeonatos e outros convites para grupos de jogos. Com 30 anos, jogava 4x por semana e, às vezes, eu até queria mais…
E sim, depois de tanta atividade nos campos e quadras da vida… O corpo grita. As lesões e machucados sempre existiram… Não tenho mais unha nos dedinhos, porque usei tanta chuteira que a unha cresce e cai sozinha. Já me cortei, levei pancada, fiquei sem andar inúmeras vezes. Conheço todos os possíveis métodos para sarar determinada pancada ou lesão e sempre tinha um spray e uma pomada anti-inflamatória na caixa de remédio.
Mas pancada todo mundo sofre… Lesões graves tive apenas 3. A primeira foi em outubro de 2005, no joelho esquerdo. A dor era tanta que tive que ser carregado para casa. Não fui ao médico e arrisquei todo tratamento sozinho… 4 meses depois eu voltava aos jogos e nunca mais meu joelho esquerdo doeu. A segunda foi em 12-04-2017, em Coimbra, no primeiro jogo que eu fazia nessa nova vida fora do Brasil. O joelho direito saiu e voltou (o famoso estilingue) lateralmente. Não suportei a dor e tive que subir para casa (eu morava no 4o andar sem elevador) sentado e de costas porque não havia como fazer qualquer movimento. Foram 3 meses de dor pesada e uma ressonância que me mostrou uma lesão no menisco leve e a cartilagem seca, além de uma “gaveta” no joelho.
Achei que seria o fim de tudo, mas não conseguia pensar que seria tão melancólico e solitário – em um País novo e sem NENHUM amigo ao meu lado jogando… Segui o tratamento. Cuidei do joelho, fortaleci na academia e em dezembro de 2017 eu voltava a jogar… 9 meses depois eu retornava MAL, com um ritmo ridículo e um corpo pesado, mas voltava a jogar. Depois dali voltei para Dublin e arrumei um grupo de salão e depois em Portugal novamente… Retornei ao Brasil para as férias de 2018 e lá fui para os jogos. O joelho começou a reclamar, mas eu tratava com gelo depois dos jogos e arriscava as partidas. Estava tudo indo bem…
Até que dia 10 de janeiro de 2019 chegou… O joelho estava doendo e até comentei com minha mãe “Não sei se vou jogar… O joelho está reclamando.” E ela me disse “Cuidado…” e eu pensei “Será o último dia de futebol, porque semana que vem já vou voltar para Europa. Acho que vou jogo e dou tchau para o pessoal… Se doer o mínimo, eu paro.” E eu fui…
Estava uma tarde boa de verão. Calor na medida certa e muita gente no campo para jogar… Várias pessoas que eu não via há anos e até pensei “Ainda bem que eu vim…”. Alonguei no início e aqueci bem para não ter problema. O jogo começou e eu me saí bem. Desarmei, armei jogadas, coloquei pessoas de cara pro gol e nada do joelho reclamar. Veio o segundo jogo e eu me soltei mais. Arrisquei dribles, mais desarmes, mais lançamentos e tabelas… O time estava perdendo por 1×0 e a gente precisava ganhar. Fui para o ataque ajudar e recebo uma bola no meu contra pé. Estico a perna esquerda para pegar a bola e a direita prende para aguentar o peso do corpo… O joelho torceu. Pego a bola e toco para o rapaz ao lado, mas ao colocar o pé no chão, não aguento de dor. O cruzamento saí e a gente consegue empatar o jogo – Saindo o gol, o time de fora grita “Acabou…” e eu pensei “Para mim também…”.
Toda aquela situação de gelo, remédio, faltar segurança no movimento, não conseguir dobrar a perna e ouvir uma sinfonia no joelho é demais e angustiante. Tinha a esperança ainda de curar o joelho, fortalecer mais uma vez e tentar de novo. Mas não dá. Mais de 2 meses depois e ainda tenho uma dor alucinante. Vivo mancando pelas ruas. Não consigo sair de casa sem a joelheira para me dar “menos dor” enquanto caminho e não consigo enxergar uma melhora latente dessa vez…
Então, é chegada a hora.
Sabia que ia terminar sem um jogo final. Sem uma felicitação ou coisa parecida. Iria acabar como começou. Do nada.
Então eu agradeço. Agradeço por todos os 28 anos de futebol na minha vida. 28 anos que joguei em diversos lugares, com diversos times e dividi o campo com pessoas surreais. Fiz amigos e adversários (nunca inimigos). Criamos, a cada qual no seu momento, uma saudável rivalidade sobre quem era melhor ou se dava melhor em determinado time. Agradeço ao meu corpo (e a Deus, certo?) por me aguentar e eu tenho certeza que não foi fácil. Agradeço aos times que passei e as pessoas que eu conheci e criei amizades. Para mim, esse era o mais importante, suar correndo atrás da bola e depois abraçar e saber que ali nascia uma amizade respeitosa.
Discuti inúmeras vezes. Briguei outras tantas… Mas no final eu respirava fundo e deixava tudo ali no campo. Nunca levei uma mágoa para casa e sempre, sempre, ria das situações depois.
Valeu… Fiz o meu melhor e o que estava ao meu alcance. Mas agora, é hora de olhar para frente e seguir a vida. Continuarei cornetando de fora e virarei o que eu mais detestava – aquele velho que sempre fala “no meu tempo eu jogava x,y,z…” .
Espero apenas não mentir e falar apenas a verdade. Porque eu joguei…
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