Nunca me senti tão cativado por alguém quanto a velha da Rua da Ladeira. Sua pose dizia que já conhecia todas as proporções e terremotos que porventura pudessem ocorrer ali…

Seu nome era Matilde, e apenas porque a menina do Casal um dia a chamou pelo nome numa conversa de varandas, mas creio não ser ofensivo eu chama-la de “Velha”, portanto usarei este adjetivo para o texto.

Descrevê-la seria uma redundância tremenda, pois ela é o mesmo tipo que conhecemos e já vimos em muitos lugares do mundo. Aquela que está sempre à esgueira na janela, espiando o mundo com olhos curiosos e marcas cansativas no rosto. Não vive carregando o sorriso desgastado do tempo, mas nem sempre é por maldade. Fica em um exato meio termo entre otimismo e realidade – porque sabe o quanto dói essa falta de balanço nas emoções e decisões. Sempre tem uma palavra ou uma notícia pronta para ser compartilhada, que vai de uma explicação de receita, até a comparação política atual com um descontentamento que nem ela mesmo acredita possuir.

Ela era mais observadora que falante, mas não fugia de um contato pessoal. Creio que ela me observava sempre, mas não ficava encarando a sua janela. Suas cortinas sempre estavam fechadas, mas creio que ela sabia que esse truque era velho demais para funcionar. Eu sabia que ela estava lá, só não sei desde que horas.

Um final de semana de chuva, eu voltava do mercado e ela também seguia com sua sacola de compras. Me avistou duas quadras antes, aguardando o sinal abrir para atravessar a longa avenida e sorriu. Retribui o sorriso com um bom dia normal, mas que para ela pareceu ser animado demais.

“O tempo poderia ser tão para cima quanto a sua animação, filho”

“Quem sabe se a gente começar assim, o tempo não muda, não é mesmo?”

“Ah esse otimismo dos jovens… Sinto falta de pensar assim, pois talvez você tenha razão…”

E seguiu-se os segundos de silêncio característico.

“Moras por aqui, filho?”

“Sim, 3 quadras naquela direção…” apontei na mesma direção da Rua da Ladeira.

Ela sorriu, pois reconheceu o meu caminho e começou a caminhar quando o sinal abriu aos pedestres. Mesmo com o saco quase cheio, seus braços eram firmes e fortes, não demonstrando cansaço ou peso excessivo. Seus passos também eram firmes e decididos, apesar da idade avançada.

“Moro numa ruela, é naquela mesma direção, acho que deve conhecer…”

“Ah, sim…”

“Pois, longos 55 anos que vivo ali. Vendo seu entusiasmo todo ao falar, me veio à lembrança, meus tempos otimistas e sonhadora. Eu carregava nos olhos o brilho das mudanças e dos sonhos que construía. Em algum momento, tudo se apagou e aí virei uma realista e velha…”

“Que isso, a senhora não é velha. E mesmo que seja, tem a sua sabedoria não é mesmo?”

Ela se calou e eu não sabia também como continuar o assunto. Viramos na rua da Ladeira e ela sorriu apenas para indicar o caminho. Eu já sabia onde ela ia parar e diminuí o passo ao perceber que chegamos a sua porta. Minha rua era a próxima à esquerda.

“Sabe filho, agora a gente fica mais observando que falando, mais observando do que sonhando. Mais observando e tentando, de algum modo, ajudar. Mas, a gente sabe quando para de ser a diferença… Eu vejo aqui mesmo, na pequena rua. Os jovens acham que estão mais sabidos que tudo e constroem muitos sonhos que eu já vi ruir facilmente… É uma pena, você passa aqui sempre e vai perceber também.”

“Eu…” e ela me interrompeu.

“Não que passa porque quer, mas eu vejo nos seus olhos. Você também quer enxergar. Um chapéu ou até uma música qualquer… Relaxe filho, isso é uma passagem. Todos somos passagens…”

Naquele momento eu sabia que a conversa havia terminado. Decidi terminar mostrando que eu também sabia de algumas coisas, apenas observando como ela.

“Obrigado pela conversa, dona Matilde. Espero ainda aprender muitas coisas com você…”

Ela sorriu e abriu sua porta. A escadaria era íngreme e acentuada, mas eu sabia que seria um insulto oferecer ajuda. Algumas coisas na Rua da Ladeira eram para ser vividas e lutadas sozinha. Ela bateu a porta sem mais nenhuma palavra.