Não sei dizer como começou, mas aquela manhã cinzenta mudou a atmosfera da Rua da Ladeira…
Havia uma série de vasos quebrados próximos da varanda do Casal. Mais à frente, cervejas quebradas onde o Solitário vivia. A janela da sala do Estudante estava fechada mesmo com o calor básico que fazia na cidade. Ao olhar para cima e tentar encontrar a Velha para uma explicação, sua janela também estava fechada e as cortinas abertas, revelando que ela não estava ali…
Tentei refazer o caminho para entender melhor o que acontecia, mas tudo estava silencioso e com um ar tenso demais. Fui para a academia, como de costume, e ao retornar, já próximo do horário de trabalho, me deparei com a Rua da Ladeira em um silêncio não característico. Tudo estava do mesmo jeito e nada parecia ter se mexido, mesmo com um intervalo de pouco mais de uma hora.
Fui para o trabalho pensando no que poderia ter acontecido e porque tudo estava tão “morto”, como eu nunca havia visto nos meses que passava por ali.
Ao retornar para casa no fim do dia, o susto continuou. O Solitário fumava um cigarro na esquina para a Avenida, um lugar incomum para ele. O estudante tinha a casa aberta, mas com uma música tão alta que parecia não querer interferências externas. A moça do casal tinha duas malas postas na frente do seu prédio e chamava um táxi do seu celular. A Velha me avistou da sua janela… Com um rápido sinal de cabeça, pediu para eu ir até o bar de esquina.
Não me cumprimentou, mas tentou me dizer tudo o mais breve possível. Sua voz era embargada e tensa e perdia o volume conforme ia contando as partes mais embaraçosas.
“São os pontos escuros da primavera. Não é a primeira vez que acontece. Na verdade, filho, eu estava me perguntando quando iria acontecer. Mas, o que eu não esperava, era que fosse tudo ao mesmo tempo…”
“O que houve afinal?”
“O casal brigou feio. Parece que o rapaz estava chegando tarde do trabalho e a menina pegou alguma mensagem que ele não soube explicar. Está indo embora e ele nem dormiu lá, acho que brigaram feio, pois enquanto ele saia com a roupa do corpo, ela tacou os vasos nele pela janela… Não sei se você reparou.”
“Eu vi hoje pela manhã…”
“Pois…”
“E o que mais?”
“Na verdade, antes houve a discussão dos dois vizinhos do início da rua. O Plínio, o rapaz brasileiro, brigou com o Alex. A discussão foi besta, eu não consegui perceber muito, pois estava distraída com o jantar e apenas tomei atenção depois das garrafas quebradas. Mas isso é adolescência aflorada. Ouviu a altura da música? Daqui a pouco o disco acaba e volta ao normal…”
“Nossa…”
“Meu medo maior é o Casal. Mas talvez tudo se resolva com boas explicações e desculpas, não é mesmo?”
“Ah sim, vamos ver… Espero que ninguém mais se machuque né? Você está bem né?”
“Eu estou filho. Ninguém quer arrumar briga ou confusão com uma velha. Fique despreocupado…”
E terminamos o assunto. Perguntei se ela queria beber alguma coisa, mas ela recusou. Disse que o dia havia sido muito cheio e tenso e queria descansar…
“Pelo lado bom, filho, se algum dos lugares ficar vago, você poderia vir morar na Rua da Ladeira. Creio que seu perfil encaixa bem para me ajudar nessas pequenas histórias que temos por aqui…”
Ri da possibilidade e virei a esquina para minha casa. Quando cheguei ao meu prédio, a Velha ainda estava na esquina e acenei para ela. Agora ela também sabia onde eu morava afinal… Talvez ela um dia precise de ajuda e vai saber onde me achar.
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