Esse texto pode ser seu, meu, do seu amigo, do seu vizinho ou de alguém que você nem imagina existir. O fato é que a vida é frágil e isso é algo que precisamos pensar mais…

Qual é o limite da razão e a decisão extrema de encerrar a vida? Qual seria a última coisa que se passa na cabeça antes de realmente chegar ao fim? Como é a estrada de quem está trilhando essa angústia? Como seria possível ajudar, sendo que na maioria das vezes, a gente é pego de surpresa? Qual foi o início dessa jornada?

Um amigo se jogou. Tirando todas as acusações, motivos e realidade que existem em um ato como esse, o que nos sobra é a surpresa e a incredulidade em se acreditar que é verdade mesmo a notícia que está no celular. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi pensar nas razões, mas logo coloquei ela de lado, por estar longe demais para se compreender o cenário que existia para o meu amigo. É difícil pensar que a luz se apagou em um momento. Que onde existia sempre uma piada pronta, reinou uma depressão poderosa e uma tristeza que é até difícil de se imaginar. Talvez o momento mais complexo seja o início dessa “jornada”… Qual foi o gatilho? Sempre tentamos entender o final, porque costuma ser trágico, mas o problema está no início dessa estrada. É lá que mora o verdadeiro motivo.

Estamos vivendo uma época com muitos suicídios. Jovens e adultos (homens e mulheres) finalizam a vida por diversos motivos que tentamos entender, mas nos custa acreditar. Todos falam que conversar é um bom remédio. Que se abrir com as pessoas próximas, é um dos melhores antídotos para aliviar a tensão da depressão e do desespero agudo. Mas cada um é cada um, com motivos e bloqueios diferentes. Eu entendo esse meu amigo. Ele sempre foi o mestre de situações – seja para criar uma gincana entre amigos, até cantar Punk Rock de cabelo azul. É difícil para pessoas como ele, se abrir e mostrar um personagem frágil, quando as pessoas precisam (e esperam) que você seja o cara que faça elas rirem – e não o contrário. Eu sofro de algo semelhante, mas aos poucos fui mudando isso e encontrando outras formas de me expressar, portar e mostrar a vida como ela é realmente “do meu lado”…

Infelizmente existe muito preconceito com o status que as pessoas imaginam de você – “Mora na Europa…”, “Só viaja hein?”, “Caralho, tá comendo do bom e do melhor…”, “Ah, mas tu ganha em Euro” entre outras coisas (até imbecis), mas que ninguém imagina que cansam um pouco gastar tempo explicando e tentando mostrar que sim, somos frágeis e temos fraquezas e tristezas enormes “até ganhando em Euro”… Não digo que esse preconceito fez meu amigo se jogar. Mas pode ser um ponto a se pensar, pois talvez o início da estrada foi um preconceito que calou uma angústia que precisava ser dita e mostrada ou até provada para um grupo qualquer. Ele pode ter tentado, mas seus próximos estavam longe ou esperando algo diferente, com isso veio a frustração em se abrir e foi dado o primeiro passo na escuridão… É apenas um palpite, mas que muitos não pensam por este lado.

Todos somos frágeis e vivemos prontos para provar o que não temos – seja uma posição social ou um pseudo sucesso profissional/financeiro. Uns acham um escape sadio – como escrever um blog com enredos fantasiosos e verdades ocultas, porém outros vivem uma angústia e desesperos tão grandes, que só a dor que eles carregam pode explicar tamanhas atitudes quando a realidade volta a comandar. Infelizmente a história é triste, mas serve de alerta para olharmos para o lado e esquecermos um pouco de nós. Dar um abraço em alguém que sempre nos abraçou. Abrir mão da nossa necessidade, em prol do próximo.

Ouvir por horas, alguém que sempre nos escutou. E tentar entender, mesmo que seja difícil e inacreditável, que atrás de toda piada e sorriso fácil, pode existe uma angústia cruel para se encerrar a vida.

Como no início, isso pode ser sua família ou a família que você escolheu na sua jornada e que agora chama de amigos. Não deixe ninguém de fora. Esteja sempre pronto, pois se todos estivermos, não teremos mais que nos assustar com essas surpresas e, juntos, podemos vencer todas as batalhas… A solidão é traiçoeira e fatal. A depressão é assustadora e letal…

Fique bem meu amigo, muita força nesses teus próximos passos!