Essa história aconteceu em um Uber em Lisboa, mas serve para nos perguntarmos certas coisas…
Quem já pegou um Uber ou uma carona no aeroporto de Lisboa, sabe que o estacionamento de parada rápida (o famoso “Kiss & Fly”) é extremamente bizarro e mal construído. Se você pegou ele por esses anos, sabe que dependendo do horário de chegada, a tarefa de simplesmente entrar e descer do carro, pode ser extremamente demorada. Tirando a engenharia errada (em que você precisa CRUZAR a entrada para sair e as catracas só liberarem novos carros quando outros saírem) e todo o caos causado, essa história tem outra razão de existir…
Consegui encontrar o Uber em pouco tempo e, como sempre, tentei puxar um assunto aleatório para matar o tempo. Ficamos bons 5 minutos completamente parados por conta da má engenharia e processo de saída. Com isso, o desabafo foi surreal.
“O cara que fez isso aqui foi muito burro.” Disse o motorista, com o sotaque português de nascença explodindo no meu ouvido.
“É complicado ter que cruzar a entrada…”
“Pois, é da maior burrice existente…”
“Não queria falar, mas depois vem daí as piadas com portugueses…”
“Esse merece. É uma vergonha nacional. Oh…”
E chegamos ao ponto que cruzamos a entrada bem no momento que alguns carros foram liberados. Nenhum carro, eu disse NENHUM carro, deu passagem para nós (que estávamos dentro e precisaríamos cruzar a frente para sair do outro lado). Isso fez o motorista esbravejar novamente. Talvez essa frase foi a mais impactante de todas.
“Falta é educação também. Como se dar passagem fosse perder dinheiro ou cobrar uma multa. Algumas pessoas precisam entender que o mundo não é delas. Simplesmente não sabem conviver em sociedade…”
Alguns minutos depois chegamos, finalmente, na saída onde ele inseriu o cartão para validação e a catraca se abriu. Ele ficou um segundo com o papel na mão e falou…
“Ah! Para que quero essa merda aqui…” e lançou o papel no chão.
Nesse momento eu falei no automático, sem pensar… “Há 20 segundos você reclamou de educação e agora joga um papel no chão como se isso fosse o correto?”
“Um papel não vai mudar a vida de ninguém…”
“Exatamente o que o rapaz do carro da frente deve ter pensado. Eu estou querendo entrar, não vai mudar a vida desse cara aí, ele esperar mais 1 minuto, porque eu estou esperando do lado de fora…”
“Você está comparando educação do trânsito com um papel de estacionamento?”
“Talvez eu esteja comparando educação, não sei…”
Ele resmungou dois palavrões incrédulos e eu me calei.
O restante da viagem foi feito em completo silêncio. Ele ainda xingou dois ou três carros na frente por fazerem alguma barbeiragem, eu não quis mais puxar assunto e apenas sorria para “concordar” que ele estava certo na sua reclamação.
Agradeci ao final da viagem e desejei um bom restante de dia para ele. Ele não me respondeu.
Horas depois, na fila do mercado, uma senhora atrás de mim tinha apenas dois produtos na mão contra quase uma sacola cheia minha, informei que ela podia passar na minha frente para agilizar sua vida. E ela falou com certa incredulidade:
“Nossa, muito obrigado. Há tempos que não via esse tipo de coisa por aqui…”
“Talvez muita gente esteja preocupada apenas com o próprio umbigo, sem olhar para o próximo, certo?”
E sorri. Ela sorriu sem responder e, após pagar a conta, agradeceu mais uma vez.
Não quero soar aqui como autoajuda ou conselheiro de bons modos (pois estou bem longe de ser um desses ou um bom exemplo), mas vivemos em um momento completamente tenso – talvez seja a política que nos separa. Talvez seja o medo ou a falta de tato com o próximo, mas precisamos olhar nossas atitudes. Nossas ações, nossas convicções e nossas ideias e realmente enxergarmos de outro ponto de vista. E sempre se perguntar coisas do tipo…
Será que a nossa reclamação está certa? Será que minha decisão não está prejudicando mais do que auxiliando? Será que meu egoísmo anda sendo mais nocivo a cada dia? Será que eu reclamo da falta de educação alheia, mas sou um dos que suja o chão por achar que uma coisa nada tem a ver com a outra? Será que posso ficar mais 3 minutos na fila e ajudar alguém? Será que eu posso sorrir mais e tentar clarear um pouco a escuridão que o mundo se tornou? Será que estou sendo tão hipócrita quanto afirmo combater isso?
Será que faltam motivos para tudo isso ou é apenas mais comodismo e falta de noção da realidade?
02/05/2020 at 23:17
Reclamar de algo e fazer o contrário?
Pensar no outro que você não conhece e ignorar quem conhece? É, falta tudo…