Ainda rindo da situação passada, se virou e encarou a realidade que não havia mais trem e teria que caminhar até sua casa…

Já era outono, mas a noite estava quente o suficiente para uma caminhada tranquila. Mesmo os mais de 50 minutos que teria que caminhar até sua casa, não pareceram uma má ideia. Caminhou por trechos desconhecidos de uma cidade que ele vivia, mas não se sentia parte dela. Ia parando por alguns bares abertos para comprar uma cerveja só para usar o banheiro e continuar sua caminhada. A madrugada estava em seu declínio e com clima de fim de festa – os bares fechando, cantorias e conversas enroladas pela quantidade de álcool consumida, promessas vazias e risadas descompassadas e o presságio palpável que a ressaca seria pesada no dia seguinte. Quase se sentindo parte daquele grupo, fez uma nota mental que a próxima parada seria para uma água – se possível duas.

Ele sentia um alívio, mas com um pouco de desespero e receio. De certa forma, sabia que a noite terminaria daquela forma. O jeito que a conversa fluiu e que as investidas foram sendo respondidas, era certo que beijaria a menina. Tinha uma superficial ideia de que ela guardava algum receio por esses tipos de relacionamentos que começam sem planejamento, mas se mostram intensos. Talvez fosse um problema pessoal. Em seus últimos relacionamentos, ele havia sido a parte intensa, mesmo tentando mostrar que não se importava. A sua forma carinhosa de tratar as mulheres, cativava e aliviava no início, mas em certo ponto causava certo desconforto, fazendo que o rompimento nunca fosse indolor.

Infelizmente, ele sofria calado e sozinho. Como resultado óbvio, as noites sem dormir eram mais frequentes. Nelas, relembrava momentos, revivia outros, tentava embaralhar os diálogos para imaginar um novo fim e ensaiava, inconscientemente, uma forma de fazer diferente na próxima vez. Sem saber se haveria uma próxima vez – o que quase sempre era a verdade. Tentava resgatar antigos contatos, passava horas em redes sociais apenas vendo e constatando que muitas das mulheres que havia saído, estavam bem encaminhadas com seus novos namorados, maridos, etc. Enquanto ele estava ali, revivendo um passado impossível e ensaiando um retorno triunfal hora com uma, hora com outra. Entre essa angústia toda, desmaiava e não sonhava com nada.

Ele sabia que, até certo ponto, essa bagagem era perceptível na forma com que falou com Clara – esse era o nome dela. Tentou relembrar as últimas horas, enxergando os diálogos de uma outra perspectiva, para tentar avaliar o quanto dessa angústia ele havia mostrado. Sabia que as cervejas e gins tomados, cobravam o preço de embaralhar as ideias e o raciocínio. Mas, torcia para que ela não se assustasse com o início e que desse mais algumas chances…

“Algumas? Plural, Matheus? Se tu tiver mais uma já está de bom tamanho, loucão!” respondeu falando sozinho, como era seu maior costume. Travava debates épicos com 3, 4 e até mais versões dele mesmo.

Mas essa voz estava certa. Se ele tivesse mais uma chance seria o suficiente. Teria que mostrar que o que ele sentiu com aquele beijo na plataforma foi diferente. Foi bom, intenso na medida que ele gostava e que durou o necessário por ser um primeiro. Ele precisaria demonstrar isso sem muita intensidade, sem desespero e apenas sendo sincero…

Checou o celular pela 5a vez e havia uma mensagem dela…

“Em casa. Adorei a noite, Matheus! E você? Conseguiu chegar?”

“Que bom… Foi até rápido. Você não mora tão longe quanto disse…

Tô chegando já também…” mentiu ele no final – Ainda tinha quase 30 minutos de caminhada

“Ah um pouco sim, mas não é o fim do mundo…

Beijos então. Avisa quando chegar. Boa noite.”

“Boa noite. E sim, eu também gostei bastante da noite”

“Ufa! Pensei que não…”

“Nunca! Foi muito boa. O final foi a melhor parte…”

Red heart

Send a kiss

Avistou um bar quase fechando. Falou abertamente que precisava usar o banheiro, mas que compraria uma água ao menos. O garçom sorriu e falou “Te deixo entrar porque foi sincero e é melhor mijar aqui dentro do que na rua. Não precisa comprar nada não…” ele riu e entrou. Comprou 2 águas sob protestos e continuou o seu caminho…