Clara era aquele tipo de mulher que muitos veem como determinada, mas não imaginam as cicatrizes que carrega dentro de si…

Clara não gostava de lembrar, mas nunca se esquecia de como era diferente e como mudou nos últimos 10 anos. Todos mudamos conforme vamos envelhecendo, é claro, mas com ela as mudanças vieram por conta de frustrações cavalares em forma de sonhos não concretizados e planos despedaçados. Com 24 anos, ela estava noiva e fazendo uma poupança para casar com o seu primeiro e único namorado. Estavam há 7 anos juntos e sabia que tinha a sorte que suas amigas não tiveram na vida – ter um namorado para a vida toda. O plano era o mais perfeito e caricato possível: Terminar a faculdade, começar a trabalhar na sua área e ter um dinheiro suficiente para dar entrada numa casa e casar. Até mesmo antes de se formar engenheira de alimentos, já trabalhava em uma multinacional e tinha um bom salário. Seu noivo era engenheiro civil e com o salário dos dois os planos pareciam perfeitos. Clara ainda carregava uma ingenuidade típica de falta de experiência humana, pois confiava cegamente em seu noivo e não passava na cabeça dela (e nem de sua família) que algo pudesse estar errado.

Depois de alguns anos trabalhando e noiva, começou a busca por uma casa. Nesse momento as brigas, discussões e sumiços inexplicáveis começaram a aparecer no relacionamento. “Long story short”, a poupança que ela havia feito durante os últimos anos “em conjunto” com o seu noivo, sumiu junto com ele. E nem a família dele sabia o que havia acontecido. Foi o princípio de uma série de mudanças e frustrações que a vida real, aquela que ela mal conhecia, tinha planejado.

Se fechou para relacionamentos e para todo o resto por mais de um ano. Quase perdeu o emprego e tudo o que havia lutado para conseguir. Se salvou depois de uma série pesada de terapias que a fez enxergar outros pontos e aprender com todos os erros e derrotas. Um ano depois disso, com quase 27 anos, seu chefe se mudou de país para assumir um cargo de diretor e fez um convite para que ela liderasse uma equipe nos novos projetos da empresa. Era um projeto de muito risco. Se não vingasse em 1 ano, provavelmente haveria cortes por conta do alto investimento que estava sendo feito, mas se desse resultados, ela estaria em uma boa posição futura. Ela aceitou sem pensar muito e o que era para ser 1 ano, viraram 5 naquela empresa.

5 anos longe do país que sempre sonhou construir sua vida e família, força a pessoa a mudar tanto intelectualmente como fisicamente. Passou a se cuidar mais, a fazer musculação e natação, ganhando definições no seu corpo que era “OK” para ela, mas sabia que muita novinha tinha inveja. Com isso também tentou relacionamentos. Ficou 1 ano com um cara que trabalhava no mesmo prédio da sua empresa, mas a cultura era muito diferente da sua e por mais que gostasse dele, algumas coisas não encaixavam. Depois encontrou outro que até moraram juntos por 2 anos e o relacionamento caiu naquela mesmice trágica de conviver com alguém que não conversa por não ter mais assunto e também sem sexo. O trágico fim foi ela saber do seu “namorido” que gastava dinheiro com prostitutas porque não tinha mais tesão nela.

Foi aí que percebeu o sinal das mudanças em sua vida. Ao invés de se abater e se deprimir por isso, riu da situação e se deixou levar por sexos temporários com caras porque sabia o quanto ela era gostosa, bonita e desejada. O problema é que isso é bom por um tempo, mas para mulheres como Clara, isso não pode ser cotidiano. Aos poucos foi se cansando da superficialidade e burrice desses relacionamentos.

Ao mesmo tempo, depois de mais de 10 anos de empresa, resolveu aceitar uma proposta em outro país. Era um cargo bom, salário maravilhoso e desafiante. Tinha uma amiga que morava ali e que falava muito bem da cidade. Paula era uma das poucas amigas que Clara mantinha da época de faculdade. Ela conhecia Paula o suficiente para saber que morar junto nesse início de mudança é sempre muito melhor do que cair nas armadilhas de encontrar algum lugar no desespero. Com isso, conheceu algumas pessoas e foi fazendo novos amigos.

Na questão de relacionamento, por ser nova na cidade e no país, ainda não tinha experimentado muito. Seus dois únicos rolos nos últimos tempos tinham sido engraçados. Sair com um cara legal e que tinha conteúdo na sexta, dar um perdido para sair com um cara tonto, mas que era muito bonito no sábado, e terminar a noite com os dois se encontrando.

Essa era Clara, ainda se acostumando com a ironia que a vida reservava para ela…