Matheus era aquele tipo de pessoa que sonha demais, mas planeja e cumpre suas promessas aos poucos. O que muitos veem como loucura, pode ser uma série de fugas…
Ele era o tipo de pessoa que era difícil saber quando falava sério ou estava sendo sarcástico ou irônico. Tinha sempre um sorriso postado que brilhava uma sinceridade difícil de descrever, mas que explodia em beleza. Alguns poucos sabiam interpretar quando a armadura estava cansada ou machucada de verdade, para suportar toda essa imagem inabalável – mesmo tendo a intensidade em sua principal característica, mas com a fragilidade caminhando logo ao lado. Era intenso com seus amigos, nunca os esquecia e os levava nas suas histórias, aventuras e viagens. Sempre os citava por nome e jamais deixaria de mencionar alguma história que fizessem parte. Sem querer, introduzia suas vidas nas das pessoas com que cruzava e era um dos pontos de alegria para ele quando isso ocorria.
Amante de livros, músicas quase desconhecidas e de jogos de palavra, ele era o tipo de pessoa que conseguia descrever um simples momento em algo épico e cheio de energia. Falador e sempre com uma piada pronta para qualquer momento, brincava nas entrevistas de emprego que seu maior defeito era ser tímido e tinha que quase jurar que era verdade, porque ninguém acreditava. Impulsivo controlado, planejava durante várias noites em claro suas grandes mudanças. Estava sempre em movimento e se autodeclarava como sem raízes – daquelas pessoas que odeiam a ideia de se fixar em algum lugar por um tempo maior que o necessário. Para ele, o “para sempre” não existia, como também os finais felizes eram pura lenda…
Não era difícil de perceber, que ele acabou criando ao seu redor uma fortaleza para mascarar toda a angústia e solidão que vivia, por conta do estilo de vida que sabia ser o único possível para si. Afinal, que pessoa iria embarcar naquela montanha-russa, por tempo suficiente em criar vínculos profundos, para que não rompesse na próxima temporada de mudanças? Sabia que a solidão que ninguém via era um problema sem solução e que o único remédio era inventar que buscava um horizonte diferente, para começar do zero de tempos em tempos e poder ter uma nova desculpa para estar sozinho.
Era temporário, mas sempre com transparência e respeito possível. Teve muitas garotas, sexos intermináveis e indescritíveis, mas nunca iludiu nenhuma delas. Teve relacionamentos proibidos e participou de mais traições que poderia suportar – esse era um dos motivos para estar solteiro e não confiar facilmente em nenhum relacionamento intenso. Viveu dois terços de sua vida longe da sua cidade natal. Teve muitas idas e vindas – de empregos, namoradas, opiniões, mas que não mudaram a inevitável realidade que prometia que ele sempre estaria ao lado do fracasso. Mudou de casa, de carro, de cidade, de país e nunca se dava por satisfeito. Por conta de todas as suas aflições, quebrava laços sem nenhum aviso prévio. Odiava brigas e discussões, porque seriam apenas mais ingredientes para turbinar suas insônias, cada vez mais frequentes e fortes.
Cada vez que partia, começava algo diferente para tentar postergar o gatilho inevitável da vida. Nessa nova versão dele, buscava relacionamentos que pudessem criar uma calma e cadenciasse a passagem dos dias e semanas. Se envolvia até certo ponto, mas não conseguia se entregar completamente. Seguia de rolo em rolo, sorrindo e disfarçando o desespero de ter que voltar para sua casa e enfrentar a verdade nua e crua.
O que via e sentia com Clara não era diferente dos relacionamentos nos últimos anos. Nada diferente. Era exatamente igual e sabia que uma hora ou outra iria estourar. Apenas tentaria aquecer o ambiente para durar o máximo possível ou até a primeira briga estourar, porque quando se irritava de verdade com algo, dificilmente voltava atrás.
Ele detestava admitir, mas com a idade, havia se tornado mais mesquinho e preguiçoso em achar normais situações que eram corriqueiras para a maioria das pessoas.
Como sua mãe dizia, quanto mais velho ficamos, mais manias insuportáveis cultivamos. Ele era a prova viva que aquilo tudo era verdade. E ele aprendeu a ser assim. Suas malas estavam prontas a todo momento, o sorriso postado para criar uma imagem de tranquila e apenas esperava despontar o próximo destino para sua fantasia continuar. E ele viria logo…
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