Clara ainda tinha as mãos nos lábios quando o trem chegou à estação seguinte. Foram cerca de 5 minutos em um mix de surpresa, lembrança e alegria…
Sorriu sozinha e tentou colocar os pensamentos em uma ordem racional. Não saberia dizer como a vontade apareceu. A conversa era despretensiosa até certo ponto, as piadas fluíram de maneira natural e ela percebeu que o senso de humor combinava com o seu. Até o nível de ironia foi algo controlável – mesmo esse sendo geralmente o ponto negativo dos outros caras com quem saiu ultimamente. Ou eram forçados demais ou se ofendiam facilmente pela ironia destilada. Com o Matheus não. Ele sabia enxergar além da ironia, respondia com uma acidez calma e a fazia rir do caminho escolhido para finalizar a piada. Talvez tenha sido o casamento da ironia na conversa que tenha sido o ponto zero daquela noite.
Ela gostou do perfume dele também. Era masculino, de presença forte, mas sem o exagero tão comum dos demais. Sim, combinava. E ela era sensorial nesse ponto. Saboreava as diferentes intensidades dos perfumes de pessoas, comidas, lugares e afins. Tentava adivinhar e mesclar as diferenças, pensando em criar olores novos que não existiam. Por mais de uma centena de vezes relembrava de uma pessoa ou de um momento apenas por conta de um cheiro parecido que cruzou ou apareceu no seu dia. Algumas lembranças sempre eram boas de reviver. Outras nem tanto…
Faltava uma estação para descer e se lembrou que o coitado a ficou esperando embarcar e perdeu o trem que o levaria para casa. Não conhecia muito bem a cidade ainda, pois havia se mudado há algumas semanas, mas duvidava que fosse tão perto quanto ele disse. Pensou em enviar uma mensagem e iniciar uma nova conversa para que o caminho de volta fosse mais leve, mas não sabia o que falar tão de cara e também poderia ser perigoso. “Vai que ele é assaltado”, ela pensou mesmo sabendo que a chance era pequena…
Se olhando no reflexo da janela do trem percebeu que o batom estava um pouco borrado e sorria sem notar. Era um sorriso leve, brilhante e que há tempos não vivenciava. Saiu da estação e parecia flutuar pela rua. Era quase uma sensação infantil, mas por algum motivo aquela noite havia sido diferente. Ela sabia desde o momento que o deixou pegar em seu braço. Aquele choque característico percorreu seu corpo e reflexou no segundo de silêncio que os dois tiveram, antes de retomar para a conversa. Ali ela teve a certeza que queria provar seu beijo…
Chegou ao seu apartamento e tirou os sapatos para não acordar a Paula – sua amiga com quem dividia o apartamento. Sentou no sofá e logo avisou para ele que estava em casa. Estava um pouco ansiosa. mas achou o motivo da mensagem aceitável para iniciar a conversa e também para saber se ele estava vivo – ou foi apenas uma fantasia criada pelos drinques daquela noite.
Ficou hipnotizada esperando que ele visualizasse a mensagem e respondesse. Passaram-se 2 minutos e nada. Levantou e foi pegar um copo de água na cozinha. 5 minutos e nada. Depois de 7 minutos a resposta veio. “Nossa, já está chegando!? Então realmente não é tão longe afinal.” pensou ela enquanto pedia para que ele avisasse quando chegasse. Ainda estava agitada o suficiente para dormir…
“Nunca. Foi muito boa. O final foi a melhor parte…”
”
“
“
“
“Acho que o beijo conectou mesmo. Eu gostei bastante. Acho que você tem treinado muito bem…” continuou ela
“Nem tanto, beijo é um trabalho em equipe. Quando é bom, é porque os dois são bons… Parabéns para nós 😉 “
“Hmmm… Pode ser. Mas tem treinado então…”
“Bem menos que você, aposto”
“Perdeu essa fácil, bebê…”
“Duvido”
“Faz tempo mesmo Matheus e não foram bons.”
“Plural? Estava numa má fase?”
“Não gosto nem de lembrar…”
“Me sinto até normal agora”
“Normal?”
“Porque incrivelmente também estava nessa nuvem negra de garotas esquisitas.
Talvez esquisitas seja muito forte, mas que não foram legais.
Sem uma conexão forte o suficiente para curtir, sabe?”
“Sim, sei sim…”
“Pois é. Mas, parece que as nuvens negras se foram e o sol brilhou.
Pelo menos por uma vez.”
“Ah. Então é só por uma vez?”
“Maneira de falar… Te contei que prefiro o verão… Quem é a senhora inverno aqui mesmo?”
“Inverno sim, mas chuva nunca”
“Mesma coisa quase”
“Não, não. O senhor está enganado”
“Enfim, até queria ficar mais tempo nesse sol, mas o trem não deixou 😉 “
“Ah é, né? Maldito trem…”
“Mas quem sabe a gente possa repetir com uns 10 minutos de antecedência né?”
“Só 10? Não fui tão boa assim então…”
“Muito sol queima quando a menina é do time inverno”
“Besta, eu passo protetor”
“Protetor faz mal, não sabia não?”
“Oxi, como assim?”
“Longa história…”
“Enfim, você já estava chegando e só no celular… Já chegou?”
“Estou subindo as escadas. Bem cansado. Longa caminhada…
Tomar um banho rápido e dormir…”
“Sim, já está tarde. Estou deitada e já vou tentar dormir aqui também…
Desculpa ter feito você perder o trem, juro que me sinto um pouco culpada.”
“Nada, a caminhada foi prazerosa, quase não vi o tempo passar… E olha aí já são 3h40…
Passou muito do horário do velho aqui hahahaha…”
“Eu também. Amanhã estarei imprestável e inútil.”
“Hmmm.. Difícil quando velhos fazem programas de jovens.
Mas entendi a deixa para não te convidar para nada amanhã. Tentamos outra hora”
“Não… Na parte da manhã não, mas tem trem até às 2h da madrugada, então temos até 1h30 mais ou menos para nos vermos, não?”
“Hahahaha… boa! Mas tranquilo. Descanse e pensamos em algo amanhã sim. Eu topo algo de tarde, o que me diz?”
“Sim, menos álcool e mais treino, certo?”
“Sim senhorita.”
“Boa noite Matheus! Durma bem e obrigada mais uma vez pela noite!”
“Boa noite Clara, obrigado você… Nos falamos amanhã…”
Ela sorria. Quase 4h da manhã e ela tinha certeza que não iria conseguir dormir, pelo menos até o dia raiar…
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