Ainda faltava metade do caminho para chegar em casa. Chegaria tarde e dormiria pouco, mas pelo menos a noite valeu muito a pena…
Havia mentido que estava em casa. Se apertasse bastante o passo, teria mais uns 20 minutos pela frente. Avaliou o que valeria mais a pena – acelerar o passo para chegar antes e poder dormir mais ou ir com calma e não forçar, afinal não teria nada melhor para fazer logo pela manhã. Decidiu ir tranquilo, curtir melhor o caminho e conhecer essa região nova da cidade. A zona dos bares ia ficando para trás e seu entorno foi mudando para ruas residenciais, silenciosas e desertas. Pensou que aquele cenário era quase uma poesia visual e sonora. O som do seu tênis no asfalto, no ritmo cadenciado e quase em sincronia com sua sombra – que ia e vinha, conforme avançava pela rua e mudava de foco entre os diversos postes de luz… Era uma maneira simples de passar o tempo que faltava para sua casa.
Além disso, recapitulou as últimas mensagens e ficou feliz por aquele início. Era certo que ela não o ignoraria ou seria algo de uma noite apenas, como também era muito cedo para saber se haveria ali uma conexão maior. Não iria pensar nada que passasse do dia seguinte e ver como seria o próximo encontro. Teria uma folga de 13 ou 14 horas e ficou satisfeito dessa “folga” e tentou focar o pensamento em outras coisas…
Deixou aquele bairro residencial para trás e já reconhecia a avenida que aparecia à sua frente. Faltavam menos de 10 minutos. Sorriu sem querer por ver a jornada chegando ao seu fim. As águas compradas no último bar já haviam terminado e a vontade de ir novamente ao banheiro já era perceptível. Havia alguns outros bares ali, quase iguais aos últimos – em fim de festa e com aquele som característicos de conversas alcoolizadas e fora de ritmo. Fez uma força mental pensando que menos de 10 minutos já estaria em casa, apertou o passo sem querer para que a vontade não vencesse a física.
“Tá perdido, caralho?” ouviu uma voz vindo da porta do “Amadeus” – o bar que estava passando na frente.
“Opa Felipão, beleza? Agora não mais. Moro aqui em cima. Uns 5 minutos pra lá.”
“Você veio a pé da festa?”
“Sim…”
“Porra… Não tinha mais trem não?”
“Perdi o último, aí preferi caminhar…”
“Não sei se você sabe, mas existe um negócio chamado Uber…”
“O quê?! Que isso???”
“Porra, juvenil…”
“Caminhar faz bem. E tu tá fazendo o quê?”
“Saidera… Chega aí. Marcela e Patrícia estão aqui também… Conhece elas, né?”
“Sim… Mas sério, estou cansadão…”
“Uma breja só. Você não vai morrer. E nem precisa pagar, eu te dou de presente por ter feito essa caminhada aí…”
“1 e vou. Sério, tô caindo em pé…”
“Seu velho…”
“E careca. Acrescente aí…”
A realidade é que apesar do cansaço, duvidaria que iria dormir facilmente quando chegasse em casa. Talvez mais uma cerveja, de uma forma mais relaxada, ajudasse a acalmar a cabeça e relaxar para que pudesse dormir melhor…
Esperou o Felipe terminar de fumar e entrou no bar. Já estava bem vazio e apenas 4 mesas estavam ocupadas. As duas meninas estavam ali, conversando outros assuntos e riram quase no mesmo momento que eles chegaram à mesa.
“Bom saber que a piada chegou. É contigo Matheusão”
“Eu sempre sou a piada pronta mesmo…”
As meninas riram e tentaram explicar o motivo da risada, claramente fora de contexto. Quando a cerveja chegou, eles fizeram um brinde.
“Um brinde para as visitas surpresas da madrugada!” Marcela propôs sorrindo e olhando fixamente para ele.
“Opa! Sempre surpresa” ele riu de volta.
Os assuntos eram aleatórios, mas engraçados. Riram durante mais de uma hora. O que era para ser apenas 1 cerveja, foram 4 e não foram mais, apenas porque o bar fechou. Riram juntos, porque era a segunda expulsão da noite. Decidiram terminar por ali e pediram os Ubers para suas respectivas casas…
“Bom, eu vou indo porque tenho umas 5 quadras. Tranquilo terminar minha caminhada.” Disse ele já se despedindo do pequeno grupo.
“Você mora para os lados da Glória, Má?”
“Sim. Exatamente na São João da Glória…”
“Eu moro na Aparecida. Precisarei passar por ali, posso te deixar mais perto. Que tal?”
“Não mulher, tranquilo. Aqui é até melhor porque estamos na parte de cima, se tiver que subir as ladeiras, tô perdido…”
“Então posso te deixar na sua porta.”
“Daqui para entrar é ruim, muitíssimo obrigado. Mas vai tranquila. Eu tô perto. Se fosse na festa eu aceitaria, fácil hahahahaha”
Ele estendeu a mão em sinal de “desculpa” e ela entrelaçou seus dedos nos dele, fazendo sinal para que a beijasse. Ele beijou os nós da mão dela, retirando justo quando ela puxava a mão para que chegasse mais perto. Os outros dois pareceram não notar o que se passou.
Ele se despediu mais uma vez e seguiu seu caminho. As cervejas que eram para acalmar, terminaram com outro efeito. Finalmente abriu a porta do seu apartamento. O relógio marcava 5h45 da manhã. No mesmo momento havia uma mensagem da Marcela no seu telefone.
“Chegou bobinho? Poderia ter aproveitado melhor a minha oferta
”
Preferiu não responder. Apenas deitou na cama e tentou dormir…
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