Ele gostava daquela sensação do seu copo enchendo e a língua enrolando uma frase mais completa. Era a hora do dia mais aguardada…
Começou como uma simples fuga de um dia difícil para relaxar a cabeça e não tomar nenhuma decisão que fosse se arrepender. No início foi assim, ele mal lembra, mas jura de pé junto que foi exatamente assim. O problema é que os dias foram ficando mais difíceis e as fugas mais corriqueiras. Quando se viu, a rotina era essa. Sair do trabalho, que agora ele chamava de “inferno”, diretamente para o bar. Os outros clientes foram ficando amigos. O dono já sabia do que ele gostava e começou a conversar e opinar sobre assuntos que mal sabia, mas eram colocados na mesa entre uma dose e outra. Já era reconhecido pelo cheiro de bar, aquele conhecido odor acre do álcool intenso, que suas roupas levavam diariamente.
Algumas vezes voltando para casa, mentia para si mesmo que aquilo ali era apenas um jeito de relaxar a cabeça e enfrentar todos os outros problemas. Dormia sem se lembrar de como e acordava com o gosto pesado da ressaca e duas pastilhas para aliviar a dor – uma para a cabeça e outra para o estômago. Tinha que checar a carteira e nunca se lembrava da conta final. Vivia como em uma loteria indefinida. Um dia gastava menos, outros mais… E sim, sobrava cada vez mais mês quando o dinheiro já acabava…
Aos poucos foi mudando o cardápio para opções mais baratas e as palavras faltavam cada vez mais rápido, devido ao grau alcoólico maior. Não se notava, pois ele era mais um no meio do seu nicho. Ele era mais um, junto dos seus e estava tudo bem. Ria quando pensava entender algo. Discutia quando fosse necessário. Profetizava quando queria. Era um ser livre no fim e feliz. E a felicidade veio com quase tudo faltando… Palavras, lembranças, dinheiro e um objetivo maior…
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