Eu estava bem naquela época. Estranhamente bem e até resolvido sentimentalmente. Há quase dois meses estava saindo com a mesma pessoa e estávamos “vencendo” as etapas e consolidando o nosso relacionamento…

Com isso, não estava buscando mais nada neste quesito e estava satisfeito. O problema foi que o semáforo fechou naquela rua – que nem era tanto meu caminho, mas quis fugir do trânsito – e ela estava perdida e sem saber a direção que deveria seguir. Eu paralisei. Tentei ajustar a minha razão e explicar o caminho, mas não consegui. Balbuciei algumas frases quase inaudíveis e ela ainda sorria quando falou “Calma menino, respira um pouco e me ajuda, por favor!”.

Meu mundo acelerava em contraponto o momento todo, mas ainda consegui parar o carro um pouco adiante e expliquei como ela poderia chegar ao seu destino. Quando terminei a explicação, ela ainda sorria – e como aquele sorriso ainda me paralisa o pensamento toda vez que me lembro dele.

“E se você me encontrasse lá daqui a 2 horas, só tenho uma consulta no médico…”

“Pode ser… Conheço bem ali.”

Eu sorria só de ouvir a voz dela, como uma criança vendo algo fantástico pela primeira vez, com olhos virgens e deslumbrados.

“Ok. Seu sorriso é lindo, sabia?”

Tentei focar em algum outro ponto, o sapato, mexer as mãos, pensar na matemática impossível…

“Não mais que o seu…”

“Que gentil! Até mais tarde…”

“Matheus, desculpa! Me chamo Matheus”

“Thaís… Me encontra no número 58, ok?”

“Estarei lá!”

Eu não lembro mais nada até chegar 15 minutos antes do combinado no número 58. Era um prédio daqueles que devem possuir 1000 salas e você se perde no número de andares. Estacionei o carro na rua vizinha e fui até a porta do prédio e a vi sair para a rua justo quando virava a esquina. Ela ainda tinha aquela aparência de que espera encontrar alguém, mas ainda está insegura.

“Se tivéssemos combinado melhor, não daria certo hein?”

“É, eu acabei de chegar mesmo… Não sabia se você já tinha sido atendida, resolvi vir mais cedo…”

“Ótimo! Eu não via a hora de sair e ver se você ia cumprir sua palavra.”

“Por que não cumpriria?”

“Eu não sei Má, mas teu sorriso é lindo mesmo…”

Eu não conseguia parar de sorrir e, nessa segunda vez, me senti um tanto abobado na frente dela. Ela tinha um brilho diferente. Algo que me paralisou, não só pela beleza, mas pelo jeito de falar e aquele sorriso que faz transformar o ambiente em algo bom e agradável.

“Tem um bar legal na próxima esquina, não sei se você conhece, mas se você quiser podemos ir lá comer e tomar alguma coisa. O que acha?”

“Topo! Claro… A comida é boa?”

“Sim… Tu vai gostar”

“De onde você tirou esse “tu” é tão engraçado.”

E fomos conhecendo melhor a vida do outro e conversando sobre tudo.

Depois de algumas cervejas ela fez meu mundo ser mais aflito…

“Má, eu preciso confessar. Sou noiva e realmente isso tudo é muito inexplicável e estranhamente gostoso…”

“É…”

“Você é casado?”

“Não.”

Continuamos a conversa, tentando entender o que havia acontecido naquele fim de tarde. Tentamos confabular ideias com astrologia, significados de sonhos e até mensagens do biscoito da sorte que ela comeu na noite anterior.

“Vocês vão querer algo mais da cozinha, pois estamos fechando…”

Assustamos com essa interrupção. Já passavam das 23h30, era uma terça-feira, e o bar já havia esvaziado, restando apenas 2 mesas ocupadas. Paguei a conta enquanto ela voltava do banheiro e era nítida certa tristeza por ver que aquele momento iria terminando…

“Bom…”

“Thá, e se a gente esquecesse um pouco da vida, só por hoje?”

“É o que eu mais quero, mas não dá né Má…”

A aflição pairava no ar e ela começou a chorar. A abracei e nos beijamos como se fosse a última ação das nossas vidas. Um beijo longo, suspirado, como se a angústia tivesse necessitando daquela sensação. Foi como se o ar faltasse e o beijo fosse o único cilindro de oxigênio. Não posso precisar quanto tempo ficamos ali, parados na porta do carro dela, naquela rua que foi a única testemunha dessa traição confessional.

A despedida foi lenta e mais dolorida. Cheguei ao meu apartamento eram mais de 2h da manhã com pouco mais de 30 mensagens no celular do mundo normal. Não tenho nada dela além do seu nome. Sem sobrenome ou o número de telefone. Admito que nas primeiras semanas, sempre às terças, refazia o mesmo caminho, sempre procurando o carro dela. Voltei várias vezes ao mesmo bar e sempre estacionava no mesmo lugar. Até hoje passo pela mesma rua que aconteceu o beijo e parece que naquele momento me falta o chão.

Até hoje eu nunca encontrei um sorriso que me paralisasse daquela forma. Uma voz que me fizesse sorrir como uma criança inocente e desde então sonho algumas noites, com um beijo que me falte o ar, exatamente como aquele início de madrugada…