Um sinal fraco, mas importante, que faz saltar os olhos uma rotina e conforta as aflições do dia…
São pequenos sinais diários. Uma rotina criada e muitas vezes sem graça, mas que se faz presente para saber que mais um dia chega ou se vai, mas algumas coisas continuam no mesmo patamar. Havia um cara que ia trabalhar de bicicleta todos os dias pela estrada. Eu o via quando ia para a academia. Creio que ele nunca me enxergou de dentro do carro, com o farol contra o seu rosto, mas eu passava a acenar todas as vezes que passava por ele como dizendo: “Bom dia, bom trabalho”. Anos depois descobri – ele vinha de Campinas para Paulínia, estacionava a bicicleta e pegava o ônibus para a Replan – porque ele apenas tinha o transporte saindo de Paulínia e não Campinas.
Depois mudei para o Rio de Janeiro e pegava o metrô para ir ao trabalho. Na estação São Francisco Xavier tinha uma senhora que vendia café e bolo. Ela não me notava no início, mas depois passou a dar bom dia e eu respondia. Lembro que quando foi meu último dia do trabalho eu passei por ela e falei que não iria mais ficar no Rio e ela me desejou toda sorte e que mantivesse a educação e sorriso – que iriam me levar longe. Mudei de cidade e fazia o mesmo caminho para voltar do trabalho para casa. No semáforo lá estava um cara limpando vidro em troca de algumas moedas. Nunca limpou meu vidro, mas ele gostava de rock e sempre balançava a cabeça e sorria ao passar pelo meu carro. Criamos uma “cumplicidade” naqueles segundos ou poucos minutos que esperava o sinal abrir…
O tempo passou e eu fui para Coimbra. Na ida para o trabalho, depois de descer do ônibus havia uma casa com um cachorro pequeno, mas que latia toda vez que eu passava pela casa. Duas semanas depois o cachorro já me conhecia e mesmo quando estava dormindo, eu o chamava para um bom dia ou um até amanhã. Prometi, no último dia de trabalho, que voltaria ali para ver se ele estava bem… Nunca voltei e nem sei se o cachorro – que já era velho – está vivo. Confortava-me vê-lo ali. Era como se fosse uma coisa inocente no meio do turbilhão vivido.
E todos nós somos assim. Passamos, criamos nossas rotinas, vivemos no tempo que nos é permitido e depois o que ficam é a lembrança ou algumas histórias bacanas. Para mim, esses pequenos sinais me mostravam que o tempo – por mais rápido que passe, conserva algumas pontas para que a gente lembre depois.
Eu não estarei aqui amanhã, mas vou levar ainda na lembrança o cara da bicicleta na estrada, mesmo que ele não faça mais aquele trajeto, a moça do café, que pode nem está mais lá. Vou lembrar o cara do semáforo, que nem sei do seu fim… Assim como o cachorro, que talvez não exista mais. E eu, que para todos eles e muitos outros, morri também…
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