Meu sangue gelou quando ela se aproximou novamente de mim. Ela sorria meio sem jeito e talvez fosse a primeira vez que a via daquela maneira…
Naquele momento, era como se o mundo inteiro voltasse a fazer sentido. Daqueles momentos que uma conjunção planetária, que acontece a cada 1000 anos, te escolhe para ser o sortudo e parte daquele espetáculo. Ela se aproximou ainda sem jeito que, mesmo sendo novo para mim – visto que ela sempre transpirava certeza e tranquilidade – a fazia mais bela, situação que eu duvidava ser possível. Eu tentei parecer um pouco “normal” com aquela situação, para tentar entender melhor o que estava acontecendo.
“Ora… Uma mudança! Nunca pensei que fosse adepta dos clichés mundanos…”
“Bobo… Mas é verdade. Eu simplesmente sabia. Não sabia como seria, mas sabia que aconteceria…”
“E posso perguntar como?”
“Eu sonhei com você. E sim, esse é o cliché… Pode zuar!”
“Uau… Funciona mesmo isso! Estou completamente derretido de prazer… Me leva para casa!”
“Besta… Mas, sendo totalmente sincera. Eu não sonhava com você desde…”
“Tá…”
“Desde…”
“Eu entendi. Não faz razão reviver isso…”
“Eu nunca pensei que tivesse sido ruim para você. Foi você quem decidiu…”
“O maior erro da minha vida.”
“Má… Para! Enfim… Eu não tinha sonhado desde 1 semana depois, ou algo assim… E isso já fazem… O quê? 10 anos?”
“Quase… 9 e alguns meses…”
“Adoro seu poder de datas.”
“Minha sina…”
“Enfim… E hoje eu sonhei.”
“Foi bom? Ou foi pesadelo?”
“Foi normal… Exatamente como agora. Você basicamente ficou do meu lado, me escutando desabafar…”
“E você precisa desabafar?”
“Talvez… Eu não sei. Sabe…”
“O que está acontecendo, Nath?”
Ela desviou o olhar. Olhou ao redor como se estivesse buscando um sinal de perigo ou algo que a bloqueasse de falar. Ela mexia as mãos, entrelaçando os dedos e mexendo na aliança. Eu ainda não havia notado em sua aliança. Era bem bonita e brilhava absurdamente, como se fosse novíssima…
Eu e a Nathália nos conhecíamos bem antes de sairmos. Éramos conhecidos de uma adolescência que sempre nos colocava perto, mas não perto o suficiente para ficarmos. Tentamos, os dois, por anos e anos marcar um beijo, mas por uma ironia absurda do destino, nunca saia de conversas apaixonadas ao telefone, em uma época antes da Internet, com os pais berrando ao fim do mês por causa do dinheiro gasto com aquelas ligações. Daí, com essa bronca e outras situações, nos afastávamos e nos reencontrávamos anos depois – onde tudo reiniciava e nunca saia das conversas. Até que sumimos um do outro “para sempre”. Mais de 10 anos depois, o destino pregou uma peça e nos colocou frente a frente. Ela estava mais linda do que eu lembrava daquela menina ao telefone. E facilmente me apaixonei. Ela tinha ganho, com os anos de vida, um brilho que era inexplicável e impossível de esquecer – seja você apaixonado por ela ou não. Era sua principal característica.
Ficamos. Nos beijamos finalmente e pude ver os olhos dela lacrimejarem após o primeiro beijo, com ela suspirando “Nossa! Eu nunca tinha esperado 20 anos para beijar ninguém… Só você!”. Aquela noite foi intensa. Ela já não morava mais na cidade e a levei para a casa da amiga dela, onde ela estava passando o final de semana. Transamos na sala da amiga. Eu voltei para casa com o dia raiando, os pássaros cantando e eu sorrindo porque nunca havia sentido aquela sensação antes.
Foram quase 2 meses de uma relação intensa de paixão e de momentos incríveis. Talvez aqueles 2 meses foram os melhores da minha vida. Claro que agora farão mais sentido, até pela brincadeira do destino novamente, mas com certeza está em um top 3 da minha vida…
Mas – e sempre existe um “mas”, eu sempre tive o poder homérico de estragar tudo sem uma explicação palpável. Eu disse acima que o destino pregou uma peça nos unindo, mas o timing não foi perfeito. Eu havia terminado um namoro completamente insano e doloroso menos de dois meses da gente se reencontrar. Esse namoro, foram daqueles que um furacão devasta toda uma vida que nunca fez real sentido, mas que é a única vida que você tem… E de repente, enquanto você ainda está recolhendo os cacos e tentando recolocar a vida em uma normalidade… BUM – tudo parece fazer sentido novamente. Mas o receio, o medo e os traumas da relação anterior tomaram conta da minha cabeça e eu terminei com ela. Sim, eu terminei com a mulher que eu considerava a mais perfeita do mundo, porque eu tinha medo que ela virasse a minha ex. Ou até que ela entendesse que eu fosse um merda que não a merecesse…
Sim, foi exatamente por isso. Sim, não faz sentido. Sim, eu segui em frente com essa “certeza”. Sim, eu quebrei o coração dela. Sim, ela chorou e eu simplesmente virei as costas e fui embora…
E obviamente eu me arrependo de cada segundo daquele dia e, principalmente, daquela época.
Talvez tenha sido um resumo longo, mas está bem detalhado.
Suas últimas palavras naquela fatídica tarde, quase 10 anos antes, foram “Se você levantar e ir embora, Matheus, será a última vez que você me vê e que nos falamos. Eu falo sério.” – e ela cumpriu perfeitamente sua decisão. Nos 10 anos que separaram aquele bendito dia, do acaso no supermercado, nos falamos apenas algumas frases e nada muito profundo.
Ela casou 4 anos depois, com o cara que ela conheceu 6 meses depois de terminarmos. Eu sabia que ela tinha uma filha, não tinha ideia do nome, mas foi a última “atualização” que tive dela na minha vida. Depois de uns anos eu parei de recordar a data que a gente terminou, simplesmente porque não fazia sentido o sofrimento tardio.
E chegamos naquele momento que ela parecia aflita, necessitando de uma ajuda que eu duvidava ser capaz de oferecer, e tentando sorrir sem jeito, mostrando a insegurança que eu jamais imaginava encontrar nela…
“Não sei como dizer. Porque simplesmente não faz sentido te contar… Mas, no meu sonho você me ouviu e talvez eu precise contar… O meu casamento não tá legal. Eu acho que o Rogério está me traindo…”
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