Eu sempre tive um problema sério com nomes. Eu sempre consegui lembrar a cara da pessoa, onde nos conhecemos e algumas histórias longas e divertidas, mas quase nunca os nomes…

E isso acontece em todos os pontos da minha vida. Eu sou o típico cara que fico sempre na minha, observando tudo ao redor e pouco interajo com as pessoas no meu dia a dia. Mas, se alguém se aproxima e puxa assunto, teremos uma tormenta de assuntos para conversar, rir e passar um tempo. O problema é que eu nunca pergunto o nome das pessoas – porque para mim isso não importa, o que importa é o momento e a conversa ser produtiva e tudo mais…

Quando me mudei para Coimbra, eu ia nadar às 6h30 da manhã. Nesse horário éramos apenas 3 pessoas na piscina. Eu, uma senhora e um senhor de bengala que tinha um problema na perna e só nadava braço – que semanas mais tarde eu descobri que era um professor em uma das escolas de Coimbra. Esse senhor passou a conversar comigo assuntos cotidianos e, como eu era brasileiro, queria saber dos temas políticos de uma outra vertente (era aquela época que o Temer tinha sido “grampeado”). Conversamos por semanas a fio. Infelizmente, depois de alguns dias eu tive uma grave lesão no joelho que me impossibilitou de ir nadar nos meses seguintes. Eu me mudei para Dublin sem um tchau. Sem um agradecimento e sem saber o nome do professor que todos os dias chegava alegre e cheio de disposição para nadar…

Seguindo no mesmo fio de natação, aqui em Barcelona vou ao clube também às 6h30. Há 3 anos a rotina é a mesma. E depois de meses seguindo e vendo as mesmas pessoas, um senhor começou a conversar comigo. Mesmo esquema – conversas além sobre a Covid, restrições, brigas políticas e afins… Com o tempo, passamos a falar mais sobre assuntos normais de trabalho, de família e etc. Ele sabia que eu ia ao Brasil para o fim de ano e quando voltava tinha a mesma piada na ponta da língua – “Está mais moreno, porém sim que te vejo mais inchado. Feijoada e coxinha? HA HA HA” – e assim seguíamos todos os dias. Conversas de 2 minutos e sabendo os hábitos de um e de outro.

Certo momento da história ele disse “Nos falamos todos os dias e eu nem sei seu nome…” me apresentei, ele se apresentou e assim seguiu a vida. O problema, como disse antes, é que eu não consigo prestar a atenção e o nome do cara se foi para sempre da minha memória.

Em novembro passado ele me contou a novidade. Havia vendido o seu apartamento daqui e tinha conseguido um trabalho melhor em Madrid e estava se mudando… Eu estaria no Brasil no momento que ele se foi. Quis o destino que no meu último dia antes de viajar, ele não foi na academia. Ou seja, “perdi” o meu amigo de 3 anos sem ao menos saber o nome dele…

É cômico, porém é um pouco trágico. Não que seríamos amigos de ir ao bar e tomar um porre junto. Nem que fossemos um dia trabalhar juntos. Mas, é praticamente improvável que eu o veja novamente. Se eu o encontrar, saberei todos os detalhes das conversas, opiniões, viagens e pontos cotidianos que conversamos durante todos esses anos. Mas se ele fizer apenas uma pergunta: “Como me chamo?” eu não saberei responder.

E isso passa com total frequência na minha vida. As pessoas chegam, marcam, construímos histórias e muitos pontos, e quando elas se vão, se vão completamente sem um nome. Sem um contato maior. Sem algo concreto para representar o tanto de concreto que fizemos naquele período…