“Eu gosto de dias assim… Cinza, nublados e com essa garoa fria. É um momento que somos mais sinceros e intensos com nossos pensamentos…”
Foi a primeira coisa que ela disse naquela manhã. Estava sentada de frente para a janela, contemplando um tempo que a maioria das outras pessoas detesta. Fazia pouco frio, mas ainda estava coberto na cama. Eu geralmente acordo cedo, mas sempre perdia para ela… Todas as vezes que dormíamos juntos, ela levantava antes do sol nascer. Eram pouco depois das 7h da manhã e lá estava ela, enrolada na minha jaqueta e contemplando o mundo lá fora. Ela estava mais linda assim…
“E por que diz que somos mais sinceros?” perguntei eu, depois de processar toda aquela primeira imagem da manhã
“Porque não criamos nenhuma ilusão ou devaneio em nossos pensamentos. Quando está sol, calor, com a gente toda sorrindo e se divertindo, temos a tendência de igualar a nossa alegria com as outras pessoas. É algo exponencial, mas geralmente criamos pensamentos e caminhos fantasiosos e que será difícil de alcançar. Quando estamos sozinhos, com o mundo todo retraído, é mais fácil de enxergarmos a nossa realidade.”
“Mas, você ama o verão…”
“Claro! Mas não estou dizendo que isso é ruim, mas a gente tende a exagerar. Criamos caminhos e sonhos meio impossíveis nessa empolgação toda. Não é culpa nossa, é automático mesmo. Mas, infelizmente acontece…”
Ela se ajeitou na cadeira, sorria de um jeito leve e vibrante ao mesmo tempo. Ela havia feito um chá que bebia aos poucos.
“Há quanto tempo está acordada hein, lindinha?”
“Pouco. Levantei, fiz esse chá e vi que o tempo estava assim. Vim contemplar. Você sempre perde, gato! Desista!”
“Estou tranquilo… Nunca quis competir.”
“Sei… Sei…”
Ela agora me olhava de um jeito diferente. Como se havia compreendido alguma coisa que há tempos estava em sua mente.
“O que foi?” Perguntei, sabendo da sua mudança de fisionomia
“Nada… Talvez você esteja me achando louca, por dizer essas coisas logo de manhã, mas é um jeito que tenho para entender tudo. Você sempre foi transparente com tudo. É como um livro aberto, onde podemos ver os capítulos existentes e as histórias contadas, mas não o futuro. Isso é impossível prever. Você é intenso, mas passageiro. Focado, mas temporário. Uma correlação interessante de um monte de extremos…”
“E…”
“Nada. Isso é bom. Na verdade, é perigoso. Você está longe de ser maravilhoso, mas isso tudo é muito bom. O perigoso excita, ao mesmo tempo que destrói. Como o verão, criamos um monte de possibilidades no calor do momento, mas depois poucas vingam. Ou melhor, poucas se constroem de verdade. Não é, gato?”
“Talvez… O futuro não existe ainda, então vivemos o presente. Para que planejar algo, se amanhã eu estarei em um país, você em outro e os nossos planos em um terceiro ou quarto? A frustração nasce daí. A minha transparência é exatamente para você saber o que existe e existiu. Daí você faz suas apostas e desejos. Alguns vão se realizar, outros não. Acontece com todo mundo. Todos somos um pouco de verão em nossos corações. Queremos as coisas intensas, perfeitas e infinitas. Mesmo sabendo que a intensidade é sempre nociva, a perfeição não existe e nada, nada, é infinito…”
Ela se levantou da cadeira, jogou minha jaqueta no chão exibindo seu corpo nu e quase sem defeitos, me beijou e sussurrou em meu ouvido que queria mais um momento real…
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