Eu me assustei com a pergunta, pois nunca imaginei que alguém pudesse sentir-se “inveja” da minha vida. Mas sei que isso tudo parte de um pressuposto absurdo…
Existe um terrível estigma de quem mora fora. Somos “novos milionários que apenas reclamam de barriga cheia”. Não podemos nunca reclamar de algo que nos acontece aqui, não podemos discutir algo concreto e muito menos exteriorizar que a grana falta por aqui. Isso é um sacrilégio absurdo.
Existe todo um preconceito com isso. Revelei no meu outro blog e também aqui, que a vida na Europa pouco tem de glamour ou riqueza. A cultura é bem diferente, você sofre para se adaptar e quando acha que conseguiu, acaba percebendo que é só o início.
As pessoas acabam vendo apenas as viagens, as fotos, as comidas e os passeios. Mas ninguém quer enxergar (porque também está lá postado) a marmita do dia a dia, a solidão implacável de vários finais de semana, o frio que isso causa e as promoções existentes para a gente viver um pouco a vida.
Gosto de viajar. Nunca escondi isso e respeito muito quem não tem esse hobby. É uma maldição e sou grato por morar em um continente que me permite “ir para Barcelona em um final de semana” com um “impacto” igual a ir para Santos durante um feriado. Com isso, eu me programo e crio objetivos/locais para se conhecer em um ano comum…
Sempre levei meus passos de maneira leve e ordeira. Não sou aquele cara que sonha e embola todos os planos para ver o que sai de toda confusão… Não! Sou ariano e sistemático. Gosto de organização e prezo muito pelo planejamento. Minha planilha financeira tem um objetivo só, mas para me policiar, mantenho um controle quinzenal com 3 possíveis caminhos – apenas para antever onde eu saí e como posso voltar. Depois de tudo isso, eu vou riscando os locais que quero ir na lista e vou programando as viagens com o tempo/promoções/dinheiro que possuo…
Um dos meus melhores amigos está morando em Frankfurt na Alemanha e a primeira parada do ano foi visitá-lo. Gasto? Eu levo como amizade e oportunidade. Esse mesmo amigo saiu de São Paulo e foi para Brasília há anos atrás e lá fui eu, 3 vezes em 1 ano e meio visitá-lo. Loucura? Amizade e oportunidade. E se amanhã ele mudar para um lugar X, espero ter saúde e oportunidade para visitá-lo lá também…
É muito simples culpar os custos por conta da sua preguiça em se organizar. É muito fácil falar que eu “tenho a vida fácil”, sendo que você provavelmente gasta muito mais errado do que eu. É muito fácil falar que não sobra dinheiro, mas continua gastando em cervejas importadas, churrascos e festas toda semana. Se esse é o seu objetivo e padrão de vida – eu também tenho o meu.
Minha mudança não foi decidida “porque eu acordei com vontade de mudar”. Muito menos foi uma mudança porque “eu tinha dinheiro e nem sabia como gastar mais…”. Foram meses e meses de pesquisa, planejamento mental-financeiro-social e abrir mão de MUITA coisa para poder estar aqui hoje. O preço para “ter essa vida” é MUITO alto e, digo facilmente, pouquíssimos têm a coragem e o planejamento para virar a vida do avesso, começar novamente sozinho e ir se virando do jeito que dá.
Antes de perguntar se minha vida vale a pena ou não, questione-se pela razão de você não poder ter uma vida igual. Pode ser que você tenha muito mais possibilidades do que eu e apenas está dando um tiro no pé, invejando e menosprezando minhas escolhas. Antes de falar que tudo é fácil, questione-se como são os dias comuns e o que foi o combustível para aquela ação. Outro dia li no Instagram: Atrás de cada foto de comida ou de viagem, há semanas ou meses de eterna solidão.
Pense nisso…
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