Por fim, acho justo comentar quem era esse andante observador na Rua da Ladeira. Um passageiro que se identificou, entre confissões e situações, com algo tão pequeno e mal notado…
Ele tinha os olhos brilhantes de uma descoberta que ainda não fazia ideia do que era. Cada dia, tentava desvendar os mistérios escondidos em uma ruela pequena, mas que escondia profundos valores e verdades absolutas, que pareciam perdidas há tempos.
Difícil desvendar, em poucos passos, o que seus olhos brilhantes captavam. Mas era fácil perceber quando a tensão aumentou em uma noite de temporal e brigas, como também se acalmou ao ver a dança das cores e perfumes dos dias mais calmos.
Seus olhos mostravam um estrangeiro, mas com uma cultura parecida e aberta às novidades de cá. Eram entusiasmados e otimistas. Eram alegres e leves, mesmo com as marcas características das noites que as dúvidas não o faziam dormir. O jovem começou a caminhar por aqui mancando e se recuperando de uma derrota. Com o tempo, seus passos foram ficando mais firmes e trouxeram também a aura alegre que tanto falta pelos lados de cá…
É nítido ver que o jovem gosta dos dias ensolarados. Dá gosto ver que alguém ainda não se esqueceu de adorar as pequenas coisas que Deus nos dá sem cobrar. E é essa característica tão pessoal que mais me agrada ao ver seus dezoito ou vinte passos por aqui diariamente.
Lembro do dia que o encontrei no semáforo e seu sorriso foi o mais sincero que me recordo. Eu entendi quando mentiu que não me conhecia, mas percebi quando ele foi diminuindo o passo bem à minha porta. Acabei por me ver nele, nas suas curiosidades e no fato dele entender que a Ruela havia muito a lhe ensinar.
Mesmo que mude a gente toda daqui, vão estar outras e me sentirei em cada uma delas. Alguns dias sou solitária e louca. Que bebo um vinho e fico acordada pensando nas minhas erradas escolhas. Na manhã seguinte a ressaca que me assombra, me faz lembrar da minha fase de Escola e das loucuras que fiz para aprender a caminhar. Vejo o casal e me lembro dos meus namorados, que sempre expulsei buscando uma possível perfeição… Aí, acabei assim, não com chapéus, mas com versos soltos de uma época que nunca mais vai voltar. Outros tantos dias, sou a jovem curiosa, que brinca de adivinhar as histórias por cá e sorrir para um mundo que muitas vezes nunca me sorri de volta. Mas nunca desisto, como o jovem, afinal mesmo que o jovem não seja mais jovem, pois lhe falta alguns tantos cabelos e possui umas tantas marcas no seu rosto, ele ainda mantém seu espírito assim e há de viver por muitos anos desvendando as alegrias e mistérios das muitas ruelas que ele a de passar…
E sei que é pedir muito, mas queria que o jovem fosse morador da Ruela. Seria interessante ver um espelho de otimismo com a mesma parte da morada que tanto batalhei…
Em um fim de tarde qualquer, voltando de uma viagem, passei na Rua da Ladeira para encurtar meu caminho. A Velha estava no bar de sempre e havia um envelope em suas mãos. Ao me ver subindo a rua, ela me acenou e eu fui encontra-la na mesa. Pela primeira vez a vi sorrindo e me entregou. Disse que eu lesse depois, pois sabia que eu havia compreendido a “ruela”, como ela chamava, e que isso me inspiraria a contar a história toda com a minha visão. Foi ela quem me inspirou para conta as histórias da Rua da Ladeira e o que ela escreveu é a mais pura verdade.
Somos vizinhos de uma Rua da Ladeira. Eu tenho essa aqui ao pé da minha casa, mas creio que todos temos uma Ladeira para contar. Uma rua pequena ou grande, mas com histórias e sentimentos singulares e pessoais demais, que nos conectam de uma forma única e singular. Uma ruela que tenha diversas versões da mesma pessoa e que mostram suas batalhas e evoluções. Seus muitos erros e, talvez poucos, acertos. Suas aflições e descobertas. Suas liberdades e extravagâncias. A Rua da Ladeira daqui é uma para mim, mas com certeza é uma para cada um que ali passa e se desvia para um lado ou outro, mas que no fundo caminha para ser uma coisa só. Uma pessoa só. Uma ruela só.
E esses capítulos todos podem ser os nossos muitos “Eu” nas diversas Ruas da Ladeira que existem por aí.
Conte-me algo aqui...