Eu dei por mim no momento da abertura de porta. Parecia algo que nunca havia sonhado – uma mão entrelaçada, um sorriso postado e uma vontade enorme de ser feliz…

Uma década havia se passado e eu não sabia quem era a mulher ao meu lado. Crescida, dona de si, viva, contagiante e linda. A beleza eu já havia reparado antes, bem antes, mas que ali, naquele vestido de madrinha, havia ganho um novo tom de vinho que sobressaia ao status inicial da sua beleza.

O calor da sua mão, a leveza com que ela andava e o pouco (ou quase nada) contato que fazia comigo, foi este o primeiro – e real- momento que entendi o que acontecia comigo. Tudo poderia ser um grande conto de fadas, tonto e infantil, com um início-meio-fim bem entendível e completamente explicável. Mas não conosco. Não com dois arianos, com ascendente em touro e voláteis como as próprias definições dizem. O próximo momento foi quando peguei em sua mão enquanto ela deitava em meu colo. Seu toque macio, leve e até irônico inundava meu ambiente como se ela fosse a dona há muito tempo.

Mas a imagem que eu mais me lembro, foi quando a deixei em casa após a primeira noite: Era dia, o sol brilhava firme após uma madrugada de chuva, ela mesma embriagada, parecia flutuar no chão e sorriu quando fechou o portão do seu prédio – ali ela inflou meu coração como se não houvesse amanhã.

Os próximos meses foram noturnos e complexos. Nunca a havia beijado, mas sentia um calor enorme apenas em conversar e trocar palavras com ela… Passaram-se meses até um convite diferente: uma festa, um sábado, bebidas infinitas e uma proximidade única. Levei seu suco de uva preferido, bebemos com a vodka infinita e eu me transformei no adolescente maravilhado pela sua beleza. Sorria ao vê-la, nublava a cada investida negativa.

Desisti em um momento da noite. Mais alcoolizado que o costume tentei desfantasiar tudo que pretendi até então. Busquei alternativas, mascarei investidas e ignorei as minhas tentações. Mas nossas noites nunca tiveram fim, sempre existia um espaço para algo maior, uma nova descoberta, um novo início…

Voltamos a casa para dormir, mas preparamos mais drinks para completarmos a noite. A cama era pequena demais para três, mas eu a tinha mais perto do que nunca imaginei. Tentei ignorar, mas senti seu rosto virando e me pedindo um beijo…

Poderia ser simplesmente a descrição de um raio no corpo ou uma avalanche de sentimentos inesperados. O que senti foi forte o suficiente para não dormir. Tentei ficar acordado todo o momento possível, apenas para me certificar que não era o sonho ou impossível.

Se ela me perguntasse hoje qual seria a primeira lembrança que teria do nosso início, seria de levá-la no carro, nove e doze da manhã de um domingo nublado, beija-la pelo vidro do seu carro e desejar que ela tivesse um bom dia, uma boa semana e que adorei a noite que não dormi com ela.