Há exatamente um ano eu chegava à Europa. Duas malas não cheias de roupas, mas uma infinidade de sonhos para realizar na cabeça…

Largar tudo é uma parte cruel. Você sai e exclui de você algo cômodo. Algo que estava “impregnado” do teu jeito, de toda forma, todos os dias. Você larga amigos para trás e, mesmo com as promessas vazias de ser eterno, você entende que é hora de reciclar. É hora de reciclar a si mesmo. É hora de reciclar antigas e inúteis amizades – que há muito não são mais amizades.

É um tempo que você tem para conhecer novas coisas. Tempo de conhecer novas pessoas. De conhecer diferentes visões e até olhar de forma diferente as mesmas estrelas que você enxergava. É hora de entender que o cruzeiro do sul não existe por aqui, e se você firmou seu destino nele, é hora de se readaptar.

Não. Não é fácil, mas é prazeroso. A dor da saudade faz você se mover em busca de algo impensável. A falta de “apoio físico” faz você tomar decisões absurdas, mas você aprende (e entende) que elas são necessárias e nem são tão assustadoras como você aprendeu anteriormente. Nesse momento que você acaba percebendo que não precisa tanto dos seus amigos antigos, pois a vida coloca novas pessoas na sua frente para você poder se apoiar da melhor maneira possível. E você se pega pensando em como viveu tanto tempo, sem alguém assim perto de você…

Já dormi em casa desconhecida. Já vi coisas absurdas no meu lado. Já acordei com desconhecidos do meu lado e apenas pensei “O que aconteceu?”. Já ajudei pessoas que me prejudicaram. Já pedi ajuda para quem eu acabei de conhecer. Já dormi em camas que eu não gostaria. Já fiquei sem andar. Já chorei. Já senti uma angústia absurda e já quis desistir. Já fiquei perdido. Já me achei. Já me senti cheio e vazio ao mesmo tempo. As sensações e sentimentos se confundem e eu não consigo definir o que é bom ou ruim – porque simplesmente essas definições se perderam em algum momento do meu caminho.

E é isso que você aprende quando vive só. Eu já havia aprendido isso, muitas vezes e de diferentes maneiras. Aqui é apenas mais uma etapa. Mais um desafio. Mais um deslumbramento que meus olhos ainda tentam se acostumar. Aqui é tudo bom, ao mesmo tempo em que é tudo horrível. E eu digo para todo mundo: se você enxerga apenas o lado bom das coisas, você está se enganando ou é ignorante e limitado em não saber o que é melhor do que você tem hoje.

Eu sigo vivendo. Longe dos amigos. Longe das conquistas de antes e aprendendo a conviver com uma solidão silenciosa, mas que me ensina a ser mais racional e menos absurdo. Eu agradeço e cresço junto. Cresço para o lado que eu queria crescer, porque sei para onde ir e tiro o melhor daqui para isso. E que venham mais anos e mais derrapadas para acertamos o caminho a se trilhar…