Era uma forma de fuga que talvez nunca saísse do papel. Daqueles planos mirabolantes para encontrarmos um amor infinito que nunca existiu…

As conversas fluíam de maneira tranquila e sem excessos. Era uma forma de se conhecerem melhor, sem se colocar no risco de mostrar um desespero palpável pela falta de alguém. Há algum tempo que ambos estavam sozinhos e carregavam a carga pesada de desilusões, falsas promessas e expectativas criadas em vão. Conheciam bem as marcas e sinais das armadilhas desses momentos e levavam com muita cautela esse primeiro contato.

Entre uma risada e outra, os sinais foram avançando e aos poucos, quase sem perceber, foram se aproximando e as conversas se aprofundando. As horas já avançavam para uma madrugada que ambos não estavam acostumados, mas pouco sentiam, por conta da curiosidade do momento em si e pelo estranho conforto que ambos estavam sentindo.

O bar onde estavam fechou e todos foram educadamente expulsos para a rua. Seus amigos criavam planos alcoolizados de continuar a festa em outro lugar, mas eles inventaram umas desculpas vagas e, se descolando do grupo original, decidiram terminar a noite e voltar para casa. Viviam em lados opostos, mas ele a acompanhou até a plataforma do trem que a levaria, mesmo sabendo que perderia o último trem de volta para a sua. Ela insistiu para que fosse embora, mas ele a tranquilizou e disse que daria um jeito de chegar em casa. Ela achou o gesto de uma sutileza e respeito incomuns para aqueles últimos relacionamentos e se abriu finalmente. Se beijaram durante cerca de dois minutos, até que o trem dela chegou.

Ela se foi sorrindo encabulada e feliz que a noite havia terminado daquela maneira. Ele ficou vendo o trem partir e deu uma risada quando notou que algumas pessoas, que haviam descido do trem, o olhavam meio sem entender o que havia passado…