Toda rua que se preze tem o seu casal característico. Novos, com um amor à flor da pele e com uma paixão tão avassaladora quanto frágil ao primeiro tormento…
Foi fácil achar a casa do casal na Rua da Ladeira. As cortinas novas, os vasos com flores na minúscula varanda e as cores que brotavam do seu interior. Era um casal comum, apaixonados por algum motivo forte, guiados por um amor avassalador e com planos e metas bem definidos para o futuro de médio e longo prazo.
Os vi a primeira vez quando estava atrasado para o trabalho. Quase passei correndo a rua para não perder o ônibus e ela desceu com ele até a rua e o beijou, desejando um bom dia. Sorri pela fantasia do ato em si e continuei minha luta diária. Ao fim da tarde, ela sempre ligava uma música, não muito alta, mas perceptível da rua e, estranhamente, o ritmo sempre parecia como eles andavam e se beijavam. Tudo em uma harmonia dita perfeita. Eram novos ali na cidade e, enquanto ele trabalhava, ela tentava entender como funcionava a vizinhança e fazia suas amizades.
Em uma tarde, ela estava na sua janela conversando com outra senhora e peguei parte do diálogo. “Acho que meus documentos ficam pronto na próxima semana. Vou até falar com o Sr. Oliveira para ver se está precisando de alguém na confeitaria. Obrigado pela dica dona Matilde” – e dona Matilde, acabou sendo a principal personagem que conheci na Rua da Ladeira. Mas falaremos dela depois.
Não sei dizer quando ela começou a trabalhar, mas os horários se alteraram em algum momento no fim do verão. Foi um verão estranhamente longo, com o calor invadindo também os meses iniciais de outono, mas que aos poucos foi perdendo a força e a magia – assim como o casal foi perdendo a sua rotina de música e cores.
Ela saia mais cedo que de costume, cruzei com ela saindo um dia que estava indo para a academia, antes das 7h da manhã. Ela ia apressada pela rua sem um beijo de bom dia. De tarde e por conta do frio que chegava, a janela ficava fechada e a música já não era ouvida, mas provavelmente embalasse a preparação do jantar – ou não havia mais jantares assim.
Era como se um silêncio imperial fosse a nova lei na casa do casal.
Mesmo aos fins de semana, que a Rua da Ladeira tinha um espírito diferente, o apartamento estava sempre fechado e eles nunca mais eram vistos juntos.
Até ouvi o Solitário conversando com o Estudante – “Tens visto o Casal do 37?” e com a negativa do Estudante logo emendou “Esquisito… Eu nunca pensei que eles fossem um romance de verão. O problema é que o inverno logo chega e estou sentindo que vem alguma destruição…”
E ele estava certo afinal…
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