Parte da minha nova rotina era passar aos fins de semana na Rua da Ladeira para sentir seu ritmo e me embriagar pelo seu cheiro e charme…

Era uma rua pequena, mas ainda assim parecia um pequeno tesouro guardado em um bairro esquecido pelo tempo. Eram poucas casas, mas durante o fim de semana, mesmo com um tempo não tão bonito, a paz parecia ser mais leve e alegre. Era um misto de cores, cheiros da roupa lavada, temperos com os preparativos do almoço ou de uma sobremesa qualquer e diferentes melodias pairando no ar.

Era comum ver as cores das roupas estendidas nos varais, dançarem com em um misto de ritmo da música das casas e do vento que passava por ali. Mesmo acordando mais tarde que o costume, a Rua da Ladeira tinha sua rotina e reconciliações características…

Foi em um sábado quente, que estava voltando da academia, ao ver o marido sofrendo com algumas caixas de uma mobília nova. Com um tímido alívio, ele aceitou minha ajuda e terminamos rapidamente de subir as últimas caixas. Dentro, a esposa estava entretida com o manual e tentando separar as ferramentas e criar uma lógica para a montagem.

“Acho que a tarde vai ser de extrema alegria…” disse ele ao fim e com um forte aperto de mão, me agradeceu e se despediu.

Outras duas pessoas com rotinas bem fixas de sábado eram os velhos – A Velha e o Velho dos Chapéus… Sentavam sempre na mesma mesa do bar e ficavam nele bebendo vinho ou sangria, com um pote de tremoços ou caracóis, e suspiravam de uma normalidade singular de morarem em uma rua tão exemplar, e iam embora quando o dono, seu Rui, fechava o bar – perto das 21h de sábado e ia para seu descanso até segunda. Volte e meia, eu ia até ali e sempre com um sorriso de comprimentos, dividíamos algumas palavras das nossas poucas histórias…

Domingo ao fim da tarde, era o momento propício para ir ver o Solitário e o Estudante rirem dos causos do fim de semana. Sempre com uma cerveja (ou um vinho, dependendo do frio existente), eles sentavam na porta e compartilhavam suas peripécias e sempre terminavam as frases com risadas altas e completamente leves.

E assim, cada qual com qual, faziam da sua rotina e paz, a Rua da Ladeira sempre respirar…