No meio de toda essa massa heterogênea de intensidade confusa com histórias mirabolantes, havia um estudante que ainda tentava dar os primeiros passos em sua vida comum…

Ele era vizinho de porta do Solitário, o que eu achei uma grande coincidência, pois eram os dois mais desgarrados da Rua da Ladeira e suas conversas rápidas e interrompidas por longas tragadas de cigarro, formavam uma espécie de harmonia. Eles gostavam de conversar no fim do dia. Aproveitando o cansaço habitual para debater suas questões impessoais e carregadas de convicções improvadas.

O Estudante tinha um ar simples e aberto para os aprendizados do mundo. Como eu, ele era de fora, e seu sotaque era quase próximo ao meu… Talvez do mesmo estado, mas ainda assim não da mesma cidade. Havia algo ali, que tirava ele da mesma região que eu nasci e cresci. Seus olhos sempre estavam atentos ao redor, mas iam perdendo velocidade conforme as cervejas e cigarros iam acabando.

A história dele é interessante nos poucos minutos que a conheço. São fragmentos de uma vida nova, guiada por sonhos e realidades tão conflituosas, quanto encantadoras. Ele é parte de muitos que vem para cá tentar um sonho de uma vida melhor, mas sem uma base inicial para traçar um norte. O resultado disso é uma eterna extensão do sonho, alimentando coisas que as vezes serão em vão.

“Acho que depois da faculdade eu consigo um trabalho que me pague 1500 ou até mais…”

Argumento que o Solitário riu e tentou demonstrar números mais próximos da realidade do jovem estudante e futuro profissional.

Em uma tarde de primavera que custou a iniciar, pois o frio do inverno durou muitas semanas que já deviam estar quentes, o Estudante lamentava uma distância e a culpava por estar sozinho por ali…

“Eu sei Má, eu também sinto sua falta… Estaríamos hoje bem melhor e mais grudados. Eu nunca vou encontrar alguém como você aqui.” Era a lamentação que se ouvia da rua…

E você deve pensar que os adolescentes são todos iguais. Todos com sonhos impossíveis e juras de amor que se perdem na próxima esquina. Sim, mas acho que o Estudante, não poderia ter escolhido melhor lugar para viver do que ali…

“Olha, Senhora, eu realmente fico feliz pelas suas palavras. Significam muito para mim nesse início de vida nova e com todas as aflições e bobeiras que passam pela cabeça nas horas tristes.”

E a Velha sorriu para ele e se virou para mim, dando uma piscadela de olho, como se falasse “Talvez eu ainda leve jeito para isso…” – e a gente torcia para o Estudante levar a sério suas palavras.