Sempre gostei de caminhar por cidades. É uma forma única de entender o seu ritmo e seus muitos pontos característicos…
Um dos passeios que mais gosto de fazer é caminhar aos domingos de manhã nos meses de inverno. É uma época perfeita para a mescla entre o silêncio total, inclusive de pássaros, com o despertar da cidade. É o momento do encontro entre as pessoas que estão começando o seu dia, com o choque habitual do frio em seus rostos, com aqueles que ainda não terminaram a noite anterior, aquecidos pelas doses alcoólicas da festa que acabou poucas horas antes.
É o momento perfeito entre sentir a solidão de uma rua normalmente movimentada, com a fala carregada, risadas sem sentido e um idioma totalmente desconhecido no outro lado da calçada. É a sensação leve de ouvir seus próprios passos e ouvir as janelas do prédio da frente se abrindo para o novo dia.
É tentar entender os segredos que algum ponto esconde. É tentar adivinhar o que havia naquele copo em cima do muro. É entender onde foi o beijo de despedida ou o olhar com segundas intenções que vão terminar em alguma ressaca moral somente na segunda-feira. É tentar reescrever o que não se viu, apenas com os vestígios inexistentes. É o momento certo de escrever contos e histórias complexas, que iniciam e terminam assim como aquela noite – se mesclando entre muitos fatores que geram uma equação se resultado.
Assim que gosto de caminhar, ouvindo um silêncio inquietante e sorrindo para os rostos fechados, tentando passar um pouco dessa beleza toda que muitos deles aprenderam a ignorar…
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