O Solitário espiava pelas janelas durante algumas horas da manhã ou estava perdido em seus pensamentos no fim da madrugada…

Ele estava ali sentado na mureta, provavelmente em frente à sua casa, contemplando um vazio de olhos, mas um mar de ideias. Lembro de ter passado a primeira vez e ter dado um educado “Bom dia” para ele, sem resposta como é comum por aqui, mas senti que ele se “religou” ao mundo segundos depois e respondeu ao meu comentário.

A primeira coisa que reparei na cena foi a cerveja. Quente, como se a espera em terminar já estivesse há um tempo pedindo passagem, e sem movimento algum, o que pode nos mostrar um tempo longo de contemplação. O Solitário era pura contemplação. Não sei o seu nome ou sua profissão, mas parece alguém preso no tempo passado, onde fica tentando encontrar fórmulas mágicas e teorias para sair de um transe inexistente ou se livrar de uma angústia que insiste em existir. Mesmo que ele consiga resolver a charada em que ficou preso, a realidade já mudou e o mundo virou a página há um bom tempo.

Em uma manhã de chuva, ele estava cantando. Uma canção antiga e conhecida, daquelas que ficam na sua mente mesmo que você não goste dela – e foi bem difícil tirar essa melodia da cabeça, mas senti um resquício de alegria em sua face tão fechada e contemplativa. Ao passar por ele, entornei o refrão, e que esperava ser a melhor parte da música, que dizia: “Shot through the heart and you’re to blame… You give love a bad name” – mas ele apenas me olhou perdido e voltou ao pré refrão com o “No one can save me. The damage is done.” Sem um sorriso ou alegria.

Dali, infelizmente, entendi que não haveria mais como salvar o solitário do seu caminho e que realmente deveria seguir meu caminho.

Tempos depois descobri que ele, como todos nós, teria coisas para ensinar, se divertir e acalmar todas as dores que a vida lhe impôs.