Foi ele o responsável por eu conhecer a Rua da Ladeira. Mesmo não sendo o principal, foi ele quem me mostrou que ali havia muito a descobrir…

Lembro do dia que estava na mesma estação e acabei o seguindo para saber onde ele morava. Para minha surpresa, o caminho era parte dos meus passos diários. Abri um sorriso no momento que percebi a coincidência, mas ainda mais o singular mundo que ele vivia e fazia parte da sua história.

Ele estava sentado à minha frente no trem. Suas primeiras palavras, após perceber meu olhar incrédulo ao olhar a pilha de chapéus coloridos que ele levava, foram: “Cada um desse é uma história diferente. Esses são as minhas histórias também e eu não posso me desfazer deles”

O Velho tinha um corpo cansado e marcado por um tempo cruel e pesado demais para se explicar em poucas palavras. Seus olhos não paravam mais do que dez segundos e sempre buscavam uma fuga, mesmo que a paisagem fosse neutra aos seus aspectos. Nas suas mãos, carregava suas histórias como se fossem sombras dos seus passos. Alguns chapéus traziam alegrias e certa emoção nas suas cores e razões. Outros, traziam um brilho único de alegria, mas com algo indescritivelmente angustiante por ali. Outros, o temor da lembrança causava calafrios, que logo eram passados como se fosse um veneno no vendaval de lembranças.

“Algumas pessoas dizem que possuem um livro aberto sobre suas vidas. Mentira, jovem! Elas não têm e nunca terão! O importante é achar um ponto em comum entre todas as histórias e levá-las consigo. Eu tenho esses chapéus.”

“E o que eles são, afinal?” quis saber já com olhos brilhantes…

“Eles são o tudo que tive e que perdi. Todos os sonhos, desejos, loucuras, corações quebrados e promessas mal cumpridas que tive na vida. Como uma maldição carrego todas diariamente…”. O velho aponta um dos chapéus, com uma cor caramelo e continua sua explicação “Algumas são o meu lembrete que eu poderia ser feliz e completo, mas…” parou para um longo suspiro e retornou quase um minuto depois. “Fazemos as escolhas erradas e viramos consequências disso tudo”, concluiu com um olhar pesado demais sobre um outro chapéu, de cor azul escuro, que não teceu nenhum comentário, apesar do olhar de angústia que agora ele tinha.

Lembro que as estações foram passando em um completo silêncio. Não havia o que ser dito ou explicado. A estação final chegou e o velho continuou sentado, enquanto todos se preocupavam em prosseguir para seu destino.

Quando levantei para seguir meu caminho, ele me puxou pelo braço. Seu toque ainda era mais marcado de uma luta incansável com as lembranças…

“Não se deixe levar pelas promessas fracas e estreitas do mundo de hoje. Mesmo com o fardo de hoje, entendo que tive que passar por tudo isso. Eu tenho os chapéus que contam a minha história, mas e tu, jovem, o que tens para mostrar ao mundo?” e finalmente se levantou e seguiu seu caminho, levando seus chapéus cobrindo seus passos…

Eu decidi o seguir para ver onde a história havia sido construída e daí conheci a Rua da Ladeira e trombei na manhã seguinte com a solidão personificada na minha frente.