Ela mais uma vez se cortava com os cacos espalhados no chão. Quase já não ligava para a queimação do sangue escorrendo e a dor que vinha na sequência…
Era o reflexo de todo o sempre. O reflexo do que foi construído, admirado, desvendado e abandonado. Um ciclo de vida cruel, que até pouco tempo atrás ninguém apostaria que chegaria nesse estado pútrido. Ela tentava se desvencilhar das ervas daninhas que já se apoderaram do seu lar – que de seu, já não tinha nem mais a cor…
Ela sempre teve a filosofia de seguir adiante e deixar para trás tudo o que lhe fazia mal. Era o seu plano infalível. Sempre recomeçou, praticamente do zero, e gostava da sensação do novo e do ar fresco que trazia esse novo livro comprado. O problema não era recomeçar, mas não mudar o enredo. Onde quer que iniciasse sua trajetória, espalhava mentiras e culpava todo o seu passado, apontando uma opressão criada e se vitimizando para todos seus novos ouvintes. Ganhava a simpatia, o carinho, transparências e até algum amor novo, mas se esquecia de retribuir.
Criava novas maneiras de ocultar as suas já conhecidas falhas. Em pouco tempo já era mesquinha novamente, venenosa e lançava seus demônios e intrigas adiante. Alimentava sua inveja da felicidade alheia, pois não conseguia sentir a mínima dose de felicidade quando alguém de fora conquistava algo – era invejosa e doentia. Sentia uma alegria quase real, quando testemunhava alguma derrota de alguém que julgava querido. Em pouco tempo, o passado se repetia e era abandonada, ignorada e simplesmente esquecida…
Aí ela reiniciava, mas não notava que cada vez que fazia isso, uma marca era deixada. Alguma parte daquela maldade toda ficava – nunca reiniciava do zero. Sempre sobrava algo. E esse foi o início do seu fim…
Perdeu as contas de quantas vezes reiniciou, porém, uma hora a base apodreceu. Os vidros começaram a quebrar, os cacos começaram a ferir sua imagem, seu corpo e deixar marcas reais do quão ela era maldosa e podre. Logo seu lar se encheu de animais peçonhentos. Ela não conseguia mais ocultar as pragas, o odor fétido e todo aquele ambiente mórbido que ela criou não enfrentando seus medos e demônios. Não sendo verdadeira e não alimentando a verdade – apenas as ilusões para tentar se sobressair sobre todos ao seu redor.
E ali estava ela. Abandonada e sem saída. Nem o fim a queria, porque já dizia algum ditado que ela sempre ignorou: Quem muito fez sofrer, para sempre sofrerá…
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