Já era mais de uma semana acordando fora do horário. A cabeça a mil, tentando ao menos manter uma sanidade e um caminho a seguir…
Ele não sabia quando tinha começado. Na verdade, essa era uma de muitas informações relevantes que ele havia perdido. Sim, era difícil para ele distinguir o que era verdade ou mentira – o que era real do fantasioso mundo que ele havia criado. Agora, sofria as outras consequências desse mundo de mentiras que ele acumulava, tendo as insônias cada vez mais frequentes e com a sua mente lutando para tentar limpar as mentiras e acalmar um pouco as demais situações.
Ele mentia compulsoriamente sobre tudo – seja vida pessoal, amorosa, profissional… Começava as vezes como uma piada para quebrar o gelo de uma conversa informal, mas ali nascia um monstro que o acompanharia por anos. As histórias ganhavam personagens diferentes, reviravoltas dignas dos melhores roteiros e algumas vezes, finais épicos que ele mesmo desacreditava ser capaz de inventar.
No campo amoroso era o básico doentio de sempre. Jurava amor e jurava fidelidade. Limpava a casa para apagar os rastros de visitas anteriores, lavava lençol e acendia incenso para afugentar perfumes diversos. Contraia doenças e jogava a culpa de volta em alguma companheira, nunca era ele. Não tinha o pudor de saber que estragava a vida das pessoas ao seu redor. Ele se tratava das feridas e seguia…
Claro que vez ou outra – e nos últimos tempos, cada vez mais frequente – confundia situações, nomes e momentos. Era pego na mentira, mas culpava a idade e jurava que toda aquela ilusão, era verdade e assim seguia. Como as “escorregadas” ficaram mais frequentes, começou a perder amigos e alguns outros já não o convidavam mais para sair. Fingia que não se importava e, mentindo mais uma vez, dizia que era parte do ciclo da vida…
Isso tudo por anos – décadas, talvez? Ele já não sabia e era aquele momento que a sua cabeça despertava às 2h30 da manhã e começava a tentar processar e limpar todo aquele furacão que ele estava metido. Dizia que se tratar era bobeira e jurava que, se fizesse terapia, mentiria mais para sair de lá curado do mundo cruel que ele vivia…
O relógio agora marcava 3h da manhã. Começou a enviar mensagens aleatórias para as meninas que saiu ou estava saindo. Com xavecos baratos e nudes provocativos.
Logo o sol daria as caras e ele estaria já cansado. Era mais um dia que ele estaria estampado com o fracasso em suas olheiras e com aquele câncer silencioso o matando por dentro – dessa realidade, ele já não conseguia fugir ou esconder…
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