Era um medo que não se palpava. Era uma constante alucinação de algo que nunca havia sido de verdade…

Uma vontade de sumir, porque tudo ali não fazia sentido. Ela confessou enquanto acordava no décimo quarto diferente, desde que se mudara. A vida era assim – uma fuga, de uma fuga, de algo que ela não conseguiria responder. O inimigo não era apenas invisível, mas inexistente. Apesar de senti-lo sempre por perto.

Ela confessava seus medos para os parceiros que escolhia sem julgamento. Alguns eram bons, outros nem ouviam – queriam o sexo e ela queria passar o tempo, antes que ele passasse por ela. Uma noite a mais, um quarto diferente, uma confissão solta e era isso. Nunca havia uma resposta. Ou quando havia era um acúmulo de bobagens que ela preferia ter sumido.

E ela sumia logo depois. Dava o telefone, mas sempre bloqueava o contato logo na primeira mensagem. “Nada é para sempre. Nem você. Nem eu” pensava e sorria enquanto sacolejava no ônibus de volta para casa.

Fazia comparações que não cabiam nas descrições. Se perdia, mais do que a própria vida. Se ela havia sonhado com uma vida comum ou decidida, já havia acordado desse sonho há muito tempo. Ela agora estava apenas se lamentando sobre uma existência que não tinha definição. Checava os horários do dia, mesmo sabendo que seria um dia livre novamente. O mesmo ritual de sempre. Uma taça de vinho antes de dormir, fosse a hora que fosse. Ela geralmente pegava no sono ao pensar que sua mãe gritaria com ela, ao ver que estava bebendo com o sol já claro…

Acordava por necessidade, tomava um banho e checava as mensagens dos poucos amigos que ainda existiam – e muitos deles sendo partes dessa realidade mentirosa que viveu anteriormente. Alguns dias culpava-se por ter se deixado influenciar e guiar em uma mentira tão mal preparada, mas logo desistia. “Pelo menos eles me fazem rir…” era a justificativa para alimentar essa amizade. Nunca comia no mesmo horário, pois cada dia a rotina de horários mudava. “Veja que dinamismo é minha vida, não tenho hora para almoçar” se auto debochava ao comer o mesmo macarrão pela quarta vez na semana.

Rabiscava seus planos num papel que se perderia pela casa. Faria contas que milagrosamente não fechariam. Arrumava suas coisas, mesmo sem um destino. “Um dia vai chegar a hora…” era um mantra tão fraco quanto sua vida. E percebendo a fragilidade de tudo, queria sumir. Se arrumava, pegava o ônibus e escolhia um novo bar, longe do anterior, e sorria para o primeiro rapaz que usasse um adjetivo ao perguntar seu nome – Era esse o seu filtro e o início do seu roteiro de ilusão…