Se falamos que cada rua tem um casal característico e um lobo solitário, obviamente vai ter aquela “velha” que passa boa parte do dia na varanda olhando tudo e tentando descobrir um pouco da vida de todo mundo…

Se vamos falar de estereótipos, talvez esse seja o principal. E não seria diferente na Rua Da Ladeira…

Claro que na rua havia a varanda típica, com poucas coisas fora e uma janela providencial que pudesse ver toda a rua e conseguisse se atualizar e “vigiar” todos os moradores e passantes esporádicos. E para completar o estereótipo, ali vivia uma senhora com seus mais de 80 anos bem vividos e ao mesmo tempo lúcida, ativa e forte. Aos poucos ela foi ganhando minha simpatia, até o destino nos colocar frente a frente e me fazer enxergar que ela seria a parte principal da minha história.

O nome Matilde veio ao completo acaso. Em uma manhã de sábado que voltava para casa depois de uma caminhada pela cidade (as minhas tão saudosas “Morning Walks”), a senhora da varanda conversava com outra senhora do outro lado da rua – Era uma conversa de varandas, que as duas senhoras praticamente gritavam para se ouvir e uma rua inteira no meio como “testemunha”. Em uma parte desse diálogo ouvi o nome Matilde seguida de uma gargalhada como se contasse algo absurdo para o momento. Assim tinha o nome real da senhora da varanda e consegui transportá-la realmente para o conto/história.

Mais uma vez o acaso me ajudou quando eu mais precisei. Eu estava estruturando toda a história da Rua da Ladeira, todas as personagens já “criadas” e tentando chegar na parte de conexão entre elas e todas as tramas que eu tinha na cabeça. Aí surge a parte mais real e verdadeira de todo o conto…

Era uma sexta-feira e estava um tempo chuvoso em Lisboa, como era meu dia de ir ao mercado, escolhi uma hora que a chuva tinha dado uma trégua e fui fazer minhas compras. Quando estava voltando para casa, avistei a dona Matilde caminhando meio que com pressa, sofrendo pelo peso das compras e com medo da chuva voltar a cair. Paramos em um semáforo, ela me olhou com desconfiança, mas sorriu e eu ofereci ajuda para carregar uma das suas sacolas. Para minha surpresa, ela aceitou a ajuda e retribuiu com “você vive um pouco acima da minha casa, não é mesmo? Então pode me ajudar sem sair do teu caminho…”. Naquela hora eu sorri e já sabia que tinha minha personagem principal – que saía do estereótipo básico, mas que impactava pela realidade que a carregava. Finalmente tinha alguém com “cara” de experiência, vitalidade e energia para guiar todos os acontecimentos que eu estava propondo para o conto. Nascia ali a minha relação “íntima” com a Velha e a deixando como a mentora de toda aquela trama fantasiosa, mas que tinha seus pontos reais aqui e ali…

Depois daquele dia, a rotina seguiu normal. A sua varanda sempre estava fechada, com a cortina as vezes balançando entre as pontas – claramente que ela bisbilhotava o movimento da rua e via quem ia e vinha por aquela fresta de pano…

Nunca mais nos falamos ou nos encontramos. Foi como aqueles pontos que acontecem uma vez para “impactar” e logo a vida segue a frieza normal de sempre – ainda mais falando de Europa. Quando fui embora de Lisboa, pensei em imprimir e deixar uma cópia da Rua da Ladeira na porta do seu prédio, apenas pelo acaso dela se encontrar em uma das pessoas ali. Logo desisti da ideia, porque vai que isso a ofendesse…

Demorei para voltar a Lisboa. Por conta da Pandemia e de outras coisas, nunca mais refiz aqueles passos e caminhos que me eram tão rotineiros… Demorei quatro anos para voltar e andar pelo meu antigo bairro e pegar a Rua Conceição da Glória para rever aquela que foi minha primeira grande inspiração de história para o Um Confessionário… Logo que cheguei à rua, busquei a varanda de Dona Matilde e estava diferente. Uma mesinha de estar, duas cadeiras, flores e plantas completando a varanda e uma cortina nova… Logo percebi que Dona Matilde não estava mais ali. Sabe-se Deus onde estaria… Naquele momento, me bateu certo arrependimento de não ter lhe mostrado o trabalho final e o quanto uma cena rotineira tinha inspirado e guiado uma história tonta de um andante metido a escritor…

Vendo as mudanças e afins todos, resolvi reviver o “universo criado” da Rua da Ladeira e confessar – como o próprio nome do Blog diz – como aquilo tudo começou. Os pontos de verdades e as ilusões criadas. As tramas e confissões. A minha visão complexa de situações simples, mas que se intercalaram na minha mente e inspiraram todas as linhas escritas…

A introdução/descrição do conto ainda é muito verdadeira na minha maneira de ver o mundo e creio que é a maneira certa de terminar esse “Epílogo” e encerrar todo esse ciclo: Histórias da Rua da Ladeira não são apenas punhados de linhas biográficas, de pessoas que nem sabiam por onde contar, mas vai além e nos mostra que todos nós temos nossas Ladeiras e que também somos um pouco do vizinho, da velha, do velho, do louco e do casal que brigou há pouco…

Por último, mas longe de ser menos importante, agradeço mentalmente ao Ramon, ao louco solitário, a Dona Matilde e a minha inspiração louca que me atormenta dias e dias com tramas e histórias que surgem do completo nada e se alimentam das minhas visões cotidianas, criando e respondendo tantas inquietações da minha vida…