Toda história sempre começa com uma pequena, quase minúscula, faísca que te traz toda a ideia, cenário, personagens e trama. A Rua da Ladeira jamais escaparia dessa fórmula tão manjada e conhecida…
Como a própria introdução conta, eu vi um velho – nos seus 70 anos – com uma sacola cheia de chapéus. Eu estava voltando de um jogo com o Palmeiras Lisboa e acabei cruzando esse velho no metro de caminho para minha casa. Ele se sentou na minha frente e eu tive que dar espaço para a sacola enorme de chapéus. Eu tinha (o verbo no passado é porque agora eu perdi muito dessa chama) uma mania de conversar com qualquer pessoa que me desse abertura para uma conversa sem qualquer razão aparente… Ele sorriu e me disse, meio sem jeito “Hoje são um peso, mas amanhã estarão bonitos em alguém por aí”… Eu ri da frase jogada sem qualquer razão e falei que era o desejo de todos nós – “estarmos bem amanhã” – ele respirou fundo e disse “é por isso que carrego esse peso, rezando para que faça alguém feliz.”. Ele disse aquela frase com o peso de quem conhecia todos os lados da vida, mas experimentado poucos dele. Era uma fala carregada, com certa desolação, porque provavelmente poucas pessoas haviam encontrado certa felicidade em seus chapéus…
A conversa caminhou por poucos minutos, com parábolas e situações que não cabem no assunto, mas deu para colocar Ramón em uma das muitas categorias de pessoas que conhecemos de trabalhadores que saem de casa com um sonho e voltam com inúmeras desilusões. Eu desci antes dele… Coloquei a mão no seu ombro e com o melhor dos meus sorrisos disse “Que essa sacola te traga a sorte desejada, uma hora ela chega. Não cometa nenhuma loucura, por favor…”
Ele apertou minha mão com a sua, enrugada do tempo, do trabalho e do peso de não encontrar descanso por décadas e disse “Obrigado garoto. Só de termos conversado esse pouco, já me valeu o dia e o peso dos chapéus. Vá com Deus…”. Eu sorri e disse que só de ter sido chamado de garoto, com a careca crescendo cada dia mais, já era o melhor presente que poderia ter ganho naquele domingo. Rimos juntos, nos despedimos e o metro seguiu com ele para algum lugar que eu não tenho a mínima ideia…
A Rua da Ladeira, nada mais é que a Rua Conceição da Glória, em Lisboa. Ela era meu caminho diário para escapar da escadaria enorme que havia do lado de casa. Por conta do meu problema de joelho, era melhor subir o Everest do que encarar os mais de 80 degraus. Logo a preferência pela ladeira… Meu caminho era cerca de 320 metros, da Avenida da Liberdade até minha rua. Naquelas duas quadras largas, muitas coisas aconteciam que chamavam a minha atenção. Eu tentava de alguma maneira liga-las em um universo que elas fizessem sentido e coexistissem em uma cidade que dificilmente te dava brecha para participar de algo maior que sua própria bolha.
Felizmente Ramón me deu o gatilho certo para conectar todos aqueles universos que presenciava diariamente.
Nossas frases soltas e impactantes foram o que guiaram minha inspiração na criação da história. Como disse acima, Ramon era uma pessoa normal e que carregava consigo inúmeras frustrações e sonhos, como eu e você. A diferença se tratava da idade, do que ele já tinha vivenciado e das épocas enfrentadas, mas naqueles passos dados na Ladeira, eu encontrei o que faltava para adicionar na massa/fermento/história – a visão jovem, a visão desapegada, a experiência, o amor fadado ao fracasso e uma mente perturbada. Naquela noite de domingo, sem querer eu tinha conseguido conectar todos os universos e assim nascia “As Histórias da Rua da Ladeira”
E infelizmente nunca mais encontrei o Ramon para poder agradecer e dizer que os seus chapéus fizeram feliz aquele “garoto”, ainda perdido naquela cidade que ele enfrentava todos os dias para poder se sentir vivo…
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