Uma mão estendida, um pedido fraco e sem forças, mas com uma resposta simples e negativa, uma faísca aparece nos olhos e um sorriso aparece onde não havia vida…
Tenho por costume falar com desconhecidos na rua. Aprendi (e não sei quem me ensinou) a falar com eles. Responder, agradecer, me desculpar, sorrir, dar bom dia, desejar boa noite e coisas do tipo. Não lembro quando começou, mas isso virou algo meu. E mudando de país (e não tendo tanto o problema de violência por aqui), essa parte acabou ficando mais divertida.
Tem uma moça que sempre está pedindo dinheiro na porta da igreja domingo. Passo por ela toda a semana. Ela não me pede mais dinheiro, mas abre um sorriso, castigado e sem dentes, mas um sorriso aberto e sincero. Não apenas isso: Ela sempre me pergunta se estou bem. Eu sempre a desejo um bom dia quando vou para meu centro e uma boa semana, quando volto para casa. Eu não frequento a igreja e creio que muitos ignorem a pobre moça de todo domingo, mas eu sabia, desde o primeiro dia por ali, que ela apenas precisava daquilo – ser notada e ter alguém para poder sorrir e receber um sorriso sincero de volta…
Todas as noites um sem teto se aproxima do mercado na esquina de casa. A voz embargada e cansada pede alguns trocados, como centenas de outros pela cidade, mas um dia eu o olhei e falei “Desculpa rapaz, não tenho nada…”. Ele levantou os olhos, tossiu para limpar a voz e falou “Não tem importância, obrigado por falar comigo. Tenha uma boa noite…”. No dia seguinte fui ao mesmo mercado comprar cervejas, ele estava lá e havia me sobrado 50 centavos da compra. Ele me olhou e sorriu, me reconhecendo da noite anterior, não me pediu nada, mas eu lhe dei o dinheiro falando “Hoje eu tenho algo, não é muito…” e ele me cortando agradeceu e falou “Não se preocupe com o valor. Meu muito obrigado”.
Semanas depois eu passei ali, estava iniciando o frio avassalador e ele estava lá. Na mesma posição. Pedi desculpa por não ter nada e pedi para ele se proteger do frio na noite… Ele me respondeu que iria se cuidar e sorriu. Meio sem jeito me agradeceu e falou “São poucas pessoas que demonstram preocupação, obrigado!”.
Olhei ao redor e havia por volta de 25 pessoas no fluxo de ir e vir, passando pelo rapaz ali, com olhos carregados, fones de ouvido ou olhares distantes. Ignorando tudo e todos… Pensei na moça de domingo de manhã, na porta da igreja, sendo ignorada por tantos que oram e pedem por perdão. Alguma coisa parece estar errada ali ou talvez tudo esteja… Mas nunca me saiu da cabeça que essas pessoas que vivem na rua, apenas querem ser notadas e se sentirem parte do mesmo mundo que os que passam na sua frente…
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