Há 15 anos que não a via e há 20 não falava com ela. Ela era uma doce lembrança de infância, de brincadeiras nas férias no interior. Ela da capital, eu do litoral.
Nos conhecemos por nossas avós e nutríamos uma espécie de amizade sem contato. Eu sabia que iria encontrá-la, ela também. Não havia uma ligação de aniversário, um convite maior para qualquer coisa. Éramos apenas dois amigos na inocente cidade do interior.
15 anos se passaram da última vez que a via e voltei poucas vezes para aquele lugar. O clima nunca me agradou depois de poder decidir onde ficar. Não tinha mais nenhum contato e nem as avós eram vivas, doce elo que nunca mais voltaria a se prender. As minhas idas ficaram escassas quase a não existirem mais, e nem sabia dizer se ela ainda visitava a cidade ou não.
A decisão de voltar em um final de semana, foi puramente inexplicável. A primavera ainda carregava boa parte do inverno e a cidade ainda estava vazia para a época do ano. Eu andava por suas ruas sem compromisso, apenas contando os passos e o tempo, quando eu cruzei com ela saindo de uma entre tantas lojas da rua principal.
No momento um espasmo ocorreu, daqueles que a gente não tem controle – tipo um choque percorrendo o corpo todo em menos de dois segundos. Ela se virou e me encarou com um brilho de conhecimento que eu jamais esperaria reconhecer.
“Bruna?” – “Matheus!?” e este foi o início do diálogo…
O tempo não foi capaz de retirar os finos traços do seu rosto, um olhar castanho claro que era difícil apontar na paleta de cores. Ela estava exatamente igual àquela menina dos anos 90. “Te reconheci quando você sorriu… Tá exatamente igual ao moleque de antes!” ela disse – e assim com os pontos de velhice contornando as doces lembranças, pudemos finalmente nos abraçar após anos de ausência.
A tarde estava em seu ápice e fomos nos atualizar da vida em um bar próximo ao prédio que ela ainda tinha apartamento. Contou da sua profissão, das frequentes mudanças, das dificuldades com a capital. Eu também a atualizei. Contei da parte nômade da minha vida, dos percalços das mudanças e de como a profissão escolhida foi me afastando de muita coisa dos sonhos de criança.
Os 20 anos foram atualizados em mais de 6 horas. O bar ia fechar e tivemos que finalizar a conta. Já estávamos na esquina do prédio dela, quando ela me pede mais uma volta. Fomos até a outra praça da cidade que estava com um parque de diversões – daqueles bem característicos de cidade pequena, alegrando uma ou duas dezenas de crianças. Nos sentamos em um banco próximo e o olhar dela era de saudade…
“Costumávamos ser um pouco mais agitados que esses daí, né?”
“Com certeza… A gente não carregava celular ou necessidade de tirar foto de qualquer coisa que aparecesse na frente”
“A gente se conhece há anos e eu nem sei o seu sobrenome…”
“E nem eu o seu…”
“Eu apenas sabia que você estaria aqui. Um dia antes ou depois de mim, mas eu sabia que te encontraria aqui Má…”
“Eu também, Bru… Eu também…”
Ela levou minha mão ao centro do peito, seu coração pulsava rápido, sua mão suava mesmo com a brisa gelada que nos encobria
“E isso?! O que é?”
“É infância. É uma doce amizade inocente, regada apenas pela alegria de viver as férias de uma maneira diferente e longe do que a gente estava acostumado…”
“Como agora?”
“É… Como agora!”
“E daquele dia? Ali naquela fonte… Você lembra?”
Ela lembrava! Ela lembrava do lugar exato, do dia… Assim como eu. Ela foi a primeira menina que eu tinha beijado na vida.
“Sim…”
“Aquele dia foi inocência ou amor adolescente?!”
“Aquele dia teve um mundo diferente, mas foi a última vez que a gente conseguiu ficar junto… Eu nunca esqueci, mas também sempre me perguntei que se não tivesse acontecido, você ainda estaria por perto?”
“Eu não sei…”
“Éramos adolescentes demais…”
“Nos afastamos, eu sei. Talvez eu tenha me afastado de você. Dois anos, em determinado momento da vida, é um mundo de distância Má. Não como antes e nem como agora, mas na adolescência, dois anos de diferença cria um mundo diferente…”
“Aquela vez foi uma das últimas que vim para cá. Não havia mais sentido. Existia um mundo fora daqui que eu precisava viver. Precisava me afastar daquela infância…”
“Por quê?”
“Não sei! Talvez por não ter nada palpável disso aqui. O que você lembra do resto do pessoal que a gente andava?”
“Não lembro de ninguém mais Má… Se passar na rua e me chamar por nome, acho que é um louco qualquer”
“Eu também! Lembro que tinha um menino que jogava bola e me levou para jogar com ele em um campeonato de férias. Mas eu não consigo lembrar do desenho do rosto dele. Do jeito dele. Mal lembro do campeonato ou de onde ele morava… De nada! Eu lembro de você. A gente se beijou e esse mundo virou. De repente, não havia mais a Bruna que eu conhecia ou que me fazia vir para cá. Eu sabia a cidade que você morava. Mais nada!”
“Você já pensou que isso tudo pode ter sido um sonho?”
“Um sonho que durou anos. Um sonho que acontecia sempre no mesmo local, com o mesmo enredo e que as pessoas ao redor são leves borrões que não conseguimos reconhecer? Sim! Quase o tempo todo que lembro de você…”
E o silêncio durou um tempo interminável. Talvez por tentarmos entender tudo aquilo. Como começou, como se perdeu e como, depois de quase uma vida inteira, nos reconhecemos tão facilmente e estávamos ali, revivendo as dúvidas de um passado que havia se perdido até há algumas horas atrás.
“Nunca senti sua falta, mas me lembrava de você…” – eu quebrei o silêncio que já estava incomodando com seu frio.
“Estranho… Você era a última pessoa que eu esperava encontrar aqui. Talvez eu tivesse alguma esperança, mas passou tanto tempo que não nutria mais alguma esperança…”
“Mas foi bom, não?”
“Má, eu terminei um relacionamento de 10 anos há cerca de 4 meses. 10 anos é muito tempo. Você perde amizades, você perde o ritmo das pessoas, você fica um pouco fora de sintonia com o resto… Não sei se você entende, mas na nossa idade, a maioria das pessoas já está com tudo meio resolvido. Eu era um peixe fora d’água com meu relacionamento. Ele queria casar e ter filhos, eu nunca pensei nisso. Sempre pensei que a felicidade estaria nas coisas certas e nas horas que a vida quisesse… Cheguei a tentar me adequar à essas vontades dele, mas nunca me adaptei. Não que eu não queira ter filhos, mas tenho muito medo de como vou criá-los e onde criá-los…”
“Não entendo a questão do relacionamento, mas entendo sua visão perfeitamente…”
“Então 4 meses atrás eu dei um basta e segui a vida. Mas o problema é que me encontrei mais sozinha que o normal. As amigas não estavam mais disponíveis, os homens me tratando com uma superficialidade absurda e minha mãe preocupada com meus sinais de depressão… Então há 4 meses eu não sorria como hoje. Há 4 meses que eu não percebia a hora passar como agora… São quase meia noite e estou bêbada, com um cara da minha infância, que mal sei o nome, mas que beijei há 20 anos atrás… Vinte anos Má! Somos velhos e acabados!”
“Acabados não! Tamo bem até…”
“Fale por si só, senhor futebol…”
As risadas ecoaram por um longo tempo. Eu levantei e fui buscar mais duas cervejas na barraca do parque. Quando voltei ela contemplava a fonte de 20 anos atrás. Nela um casal com mais ou menos a idade que tínhamos estavam abraçados com um sorriso que dizia muito com pouca coisa…
“Será que avisamos eles?”
“Do que?! Que aquele lugar é nosso e se eles ficarem ali muito tempo, eu vou ter que expulsá-los na porrada?!”
“Não… De que este pode ser o início de uma tormenta sem volta”
“Acho que não… A história se repete, mas pode ser que tenha capítulos diferentes. Quem sabe eles sejam da mesma cidade e já são namoradinhos que estão apenas conversando e fazendo juras que eles pensam ser eternas?”
“Não fizemos juras, né?”
“Mesmo novinhos, entendíamos a vida né?”
“Sempre me chamaram de fria…”
“Opa! Temos muito em comum então”
Ela se levantou e me levou pela mão até a fonte. O casal parece não ter se importado com a nossa presença ali. Ela tentou lembrar o lugar exato, indo para frente e para trás, me pedindo ajuda para tentar chegar no lugar exato. O casal olhou para nós sem entender. Ela disse: “Há 20 anos, eu beijei esse menino aqui. Um pouco pra lá ou pra cá… Foi a última vez que nos falamos até hoje de tarde. 20 anos se passaram e nunca mais nós trocamos uma palavra. Nem um feliz aniversário ou até um feliz natal… Aquele beijo selou um fim para a nossa amizade, acreditem! Preciso que vocês testemunhem que 20 anos depois, no mesmo local que terminou uma parte da nossa vida, se iniciou outra. Vocês podem tirar uma foto do nosso beijo?” o menino levantou e pegou o celular desconfiado, a menina tinha um sorriso meio incrédulo no rosto…
Naquela época ela era um pouco maior que eu, foi estranho ter o primeiro beijo daquela forma. Mas agora eu estava maior que ela. O abraço que ela me deu teve um encaixe perfeito e, por um leve momento, eu achei que o perfume dela era igual ao de 20 anos atrás. Que a menina de antes estava nos meus braços, sorrindo com uma cara de adulta que me assustava… Mas o olhar era de uma esperança renovada, de um quase pedido de auxílio – para que naquele momento, pelo menos por aquele momento, a vida esperasse um pouco. Os medos, os problemas profissionais e toda a pressão existente dessem uma pausa. A vida dela pedia um beijo inocente. A vida dela pedia que ela fizesse algo sem temer as consequências. A vida dela pedia que ela fosse criança de novo. Não apenas a vida dela, eu percebi que também precisava daquilo tudo, talvez em proporções maiores até.
O beijo durou um tempo qualquer. Eu não consigo me recordar quanto. Mas aquele beijo abriu uma enxurrada de nostalgia em mim. Era como se um ciclo se fechasse. Lembrei dos relacionamentos passados, de todas as perdas e sonhos não realizados. Lembrei das derrotas, das vitórias e dos caminhos que tive até me levarem exatamente ali. 20 anos se passaram pela minha mente durante aquele beijo. Ao terminar, o olhar dela também estava com a mesma entonação do meu. A retrospectiva daquele beijo atingiu os dois da mesma maneira.
O casal tirou 5 fotos no total. Eles já haviam saído e deixaram o celular dela no lugar que eles estavam. Em uma das fotos a posição do cabelo dela estava exatamente igual minha lembrança. Eu sorri ao ver a foto e ela me perguntou o porquê.
“Toda vez que eu lembrava de você, era esta imagem que eu tinha. Seu cabelo caído desta maneira no ombro…”
O parque já estava fechado, não havia mais ninguém na praça. Ficamos sentados no “nosso lugar” por quase 1 hora. Pouco conversamos, apenas ficamos ali, o abraço apertado ajudando no frio da madrugada, o coração acelerado e o pensamento de cada um em algum lugar bem longe dali, mas com aquele fundo como sustentação.
“Será que em 20 anos estaremos aqui?”
“Eu morro antes Bru… Vou furar esse convite.”
“Seu besta! Vai me deixar aqui sozinha?!”
“Eu te deixei por 20 anos e você se cuidou bem, não?”
“Poderia ser diferente agora… Ou não né?”
“É…”
Voltamos pelo mesmo caminho. A rua deserta. Nossos passos e vozes eram os únicos sons da cidade. Parecia que tudo havia sumido. Apenas nós dois existíamos e apenas nosso momento importava para o mundo. Conversávamos de Barcelona e de como a cidade tinha um brilho de especial. Descobrimos que estávamos na cidade na mesma época e no mesmo festival.
“Se aquele Primavera Sound fosse menor, poderíamos ter feito um capítulo diferente…”
“Nada! Tu tava namorando, mulher.”
“Imagina a briga?!”
“Jamais! Talvez eu te visse, falasse com você e pensasse em como você continuava a mesma menina linda que sempre foi…”
“Você iria sorrir Má?! Porque aí eu sonharia com este sorriso e terminaria no dia seguinte!”
“E sairia por Barcelona berrando?! Sua louca…”
“Quem sabe?!”
“Barcelona pulsa, mas nossa história está aqui. Nessa minúscula cidade com seu coreto bonito…”
“A gente corria em volta dele, lembra?!”
“Bastante… Ele era diferente. Era mais ‘clássico’ e ficava no meio, não aqui na ponta…”
“E a vozinha da pipoca?”
“Nossa! Aquela rosa com um buraco!”
“Será que existe?! Vamos procurar amanhã?”
“Isso é um convite pra nos vermos amanhã Bru?”
“Sim! Eu quero mais Matheus depois de 20 anos…”
“Mas depois do beijo a gente deveria sumir, não?”
“Está pronto para mudar essa história senhor Matheus?”
“Acho que topo, senhorita Bruna…”
“Deixa eu anotar seu telefone… É Matheus o que?”
“Monteiro…”
“20 anos para descobrir esse nome completo, o que mais eu vou descobrir amanhã?”
“Amanhã não sei, podemos começar pela vozinha da pipoca, depois eu respondo o que você quiser…”
“Boa noite Má! Foi mais do que maravilhoso!”
Ela me beijou mais uma vez, sem se importar com o tempo ou o cansaço latente por conta da hora avançada. Eu fui caminhando para casa, pensando em tudo o que aconteceu, em tudo o que uma mera coincidência e uma lembrança solta, de uma menina da minha infância, me levaram. Foram quase 12 horas juntos. Doze horas que fizeram os quinze anos longe, ficarem menores e quase sem importância.
Cheguei ao apartamento e minha mãe acordou com o barulho na porta.
“Nossa! Tarde hein filho, onde estava?”
“Reencontrei aquela Bruna mãe, lembra?”
“A menina de São Paulo que passava férias aqui e brincava contigo?”
“Essa mesmo…”
“Nossa! E como ela está?”
“Exatamente do mesmo jeito…”
“Que legal… Ainda mora lá?”
“Sim. É engenheira e ainda tem o mesmo apartamento de sempre aqui…”
“Algumas coisas não mudam né filho?”
“Talvez né…”
Sonhei com tudo misturado: Finais diferentes, diálogos fora de ordem, risadas abafadas e fotos diferentes. Sonhei até com Barcelona e com os dois correndo pela Rambla, fugindo de algo inevitável…
A ansiedade me acordou cedo. O celular não registrava nenhum telefonema ou mensagem nova e continuou assim por toda a manhã. Fui almoçar e na volta o celular tocou. O número era diferente e a mensagem dizia: “Minha mãe quis vir embora mais cedo hoje. Desculpa! Não quero pensar em outros 20 anos. Este é meu telefone. Marcamos para nos vermos em São Paulo? Beijos. Bruna”
Li e não respondi. Minha mãe deve ter percebido algo diferente no meu jeito e perguntou
“Vocês iam se ver hoje de novo?”
“Sim, mas ela teve que ir embora para SP mais cedo…”
“Ah…”
“É… Algumas coisas não mudam né?”
“Pelo menos agora tu tem o telefone dela, não?”
“O telefone sim… O sobrenome ainda não.”
“Uma coisa de cada vez…”.
Ou com 15 anos no meio… – pensei sem externar este ponto…
Não respondi. Quis continuar com a sensação de que aquilo tudo foi um sonho tão perfeito e irreal que nunca poderia ser realidade. No final da tarde, relendo a mensagem pela trigésima vez, respondi: “Não sei se topo… São Paulo não parece ter uma fonte para chamarmos de nossa. E ainda não salvei teu telefone. Preciso de um sobrenome…”
Em menos de um minuto a resposta.
“No próximo beijo você terá o nome completo. São Paulo não terá a nossa fonte, mas terá algo novo e diferente, prometo! Vem!”
“Um jantar agora?”
“Adoraria!”
“Me passa o teu endereço?”
Ela mandou a localização, conhecia bem a região que ela morava.
“Pode vir…”
“Em 1h30 eu chego aí…”
“Vou tomar banho. Me liga quando tiver chegando?”
E assim parti para a estrada, não me importando com nada mais além do impulso de ter algo novo, de ter uma história sendo escrita e de ter aquele olhar novamente na minha frente. Nada mais além da vontade enorme de poder beijar aquela menina de novo. Aquela que eu beijei menina e agora era mulher, mas que não me importava a idade, as diferenças e o tempo afastado. Para mim ela sempre seria aquela menina, com um jeito de adulta que me assustava e que percebi que queria mais do que tudo. Mesmo que fosse um sonho. Mesmo que nunca chegasse. Mesmo que fosse tudo uma mentira. Eu a queria de novo. Mais até do que a própria razão…
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