Era uma teia de mentira sem fim, onde se perdiam as narrativas e razões. Onde se perdeu inclusive o pouco de realidade que existia…

Ele criou um personagem enigmático e popular. Criou do zero, sem um rascunho inicial e o viveu até as últimas consequências. Para o exterior ele era cheio de vida, muitas histórias, um conhecimento incomum e onde a alegria sempre guiava os passos e olhares por onde chegava. Por dentro era um vazio completo. Empoeirado e fraco, com medo de um julgamento que não tardaria para chegar e ele não teria como se defender…

A sua sorte era que poucos prestavam atenção verdadeiramente. E ele sabia disso. Jogava com isso e era essa a sua sorte bendita. Ninguém queria saber de ligar pontas soltas de histórias em que é fácil fingir demência ou culpar um possível estado alcoolizado por tamanha incoerência. As pessoas quase o idolatravam, convidando para coisas além ou citando em alguma conversa que necessitava uma versão diferente…

Difícil falar como começou. Criou esse personagem ainda jovem, sofrendo por ser deixado de lado em momentos que até hoje relembra e imagina como devem ter sido. Foram inúmeras festas, garotas, shows ou apenas noites de bebedeira e risadas que ele não participou. Que ele nem era lembrado.

Se mudou para o mais longe que conseguiu e aí iniciou seu personagem. Começou pequenas mentiras e histórias que apenas viveu em sua imaginação e com isso ganhou atenção em um ambiente muito parecido com ele – volátil e falso. E aquilo cresceu, tomou proporções incalculáveis até que esqueceu quem era, quem foi e quais eram seus reais planos, desejos e objetivos.

Talvez tenha o sucesso alcançado, mas tudo vira realidade quando está só e sabe que não é notado. Tudo piora quando os convites cessam e as histórias mentirosas e pesadas demais, enjoam as pessoas ao redor. Pessoas essas que parecem amigos, mas que ele sabe muito bem que o seu personagem criado permite muitas coisas, mesmo a sinceridade de uma amizade…