O início sempre é a parte que todos lembram, que remonta os acontecimentos e diálogos, mesmo sendo confusos e inaudíveis…

Era uma conversa franca entre dois amantes de segredo. Uma conversa abafada pela música que estava alta demais e foi o pano perfeito para que todos os desejos e vontades fossem expressos. Era um início de traição planejada, daquelas que o enredo se monta na cabeça e sempre encontra uma ou outra lacuna na agenda predileta. Eles eram conhecidos – amigos, por assim dizer – e sabiam o que queriam. E era o plano perfeito, ninguém suspeitaria de nada. Mesmo sendo essa a tola certeza existente nos planos mirabolantes.

E assim foram na terça-feira seguinte – Não fim de semana e nunca início dela, pois é dia sagrado. Repetiram na outra. E na outra também. Até que na outra, ela tinha outra traição marcada e ele aproveitou para remanejar a traição de quarta, para terça e assim ficaram bem.

Ela foi desmascarada. Ele também. Se abraçaram na solidariedade de amigos que eram e se viram sozinhos, depois de todos os que viviam próximo se afastarem por perplexidade e não conseguirem tomar partido de um lado ou de outro, sendo que os dois eram errados demais…

A união foi mais por conveniência e para provar a todos que eles se gostavam e eram melhores que aquilo. Ninguém acreditava. Eles sim. Até o sexto mês, que ele demorou para ligar e ela começou a desconfiar. Eles brigaram e ele lembrou que ela tinha “sumido” na quinta-feira anterior e não dado nenhuma explicação. Ela tentou provar onde estava, mas a justificativa era fraca demais. Ele usou isso, mas quando foi questionado, não quis provar o seu lado da história. Ele disse que amava ela. Ela não. Houve um silêncio mortal. Daqueles que poderia ser tocado e personificado. Um silêncio que fez o som das panelas protestantes, baterem descompassado com seus corações.

Ele questionou. Ela disse que estava brava e por isso não ia falar, mas que amava. Foi tão fraco que as promessas da campanha eleitoral passada soaram mais verdadeiras…

Ele fez as malas. Ela chorou em silêncio na cozinha, comendo um macarrão requentado e sem graça.

Quando ele se foi, deixou a nota do bar que estava com amigos na mesa. Era o bar que ele sempre ia após o futebol semanal. Ela disse “eu te amo”, mas foi abafado pela porta que bateu e não voltou abrir por meses.

E assim foi como ela relembrou onde começou toda a angústia e a falta de amor.

Foi essa a primeira pergunta que a terapeuta fez e ela nem se lembrava que era uma terça-feira também…